A LEITURA, SEUS VAZIOS E ENLAÇAMENTOS SUBJETIVOS

Claudemir Belintane

 

O processo da leitura já suportou diversas comparações, desde um motorista dirigindo a uma adivinha. A alegoria da direção do carro se prende à ideia de que para dirigir bem é preciso automatizar todos os comandos (mudanças de marcha, uso da embreagem, freios, retrovisores etc) e reunir o conjunto todo fixando-se no resultado: o carro em marcha. Ler, então, seria isso, automatizar tudo (imagem da letra, relação da letra com o som, ligação entre as sílabas etc) para que o cérebro não se

sobrecarregue com esses esforços e possa concentrar-se nas associações entre o que traz na memória e o que está recebendo no momento da leitura, ou seja, automatizar tudo para liberar os sentidos. A semelhança com a adivinha tem a ver com as inferências e os usos de conhecimento de mundo e de linguagem que ambos os campos exigem. Para decifrar uma adivinha é preciso associar cada uma de suas afirmações e ir cotejando com as pistas que se tem na memória, até formar a imagem que se procura. Vejamos um exemplo:

Campo grande, gado miúdo

Boiadeiro bom aboia tudo

 Ora, como já sabemos que se trata de uma adivinha, vamos supor sempre que campo não é campo, que gado não é gado e assim por diante. Temos que inferir, talvez por semelhança (metáfora), o que seria “campo grande”. Mas aí a gente se enrosca, pois é difícil fazer isso isoladamente. Pegando o outro termo, “gado miúdo”, podemos inferir daí uma relação: “uma coisa

grande que porta outra pequena, só que gado é meio coletivo, então uma coisa grande que porta outras coisas pequenas”. No verso seguinte, temos um tal boiadeiro bom, que aboia tudo. Bem, alguém pratica uma ação (aboiar, para quem conhece o Nordeste sabe que é cantar para reunir, para juntar o gado). Então, esse alguém com alguma voz junta o gado miúdo que está sobre o campo grande. Pois bem, ainda podemos ficar enroscados por aí, mas, ao sabermos que a resposta é A LEITURA E O LEITOR, tudo fica mais que claro. No momento em que recebemos a resposta, refazemos a leitura (fazemos uma retroação) ressignificando cada termo (campo grande é papel, gado miúdo...). Bem, procedimentos como esse, por exemplo, poderiam ser aplicados ao editorial da Folha de S. Paulo e, se bem feitos, já perceberíamos no primeiro parágrafo o quanto o rabo dela está preso com o PS...

Há uma outra alegoria, de que nós gostamos muito, que é a dos “espaços vazios”. Um bom texto seria aquele que oferece espaços vazios ao leitor e a boa leitura seria aquela que consegue se haver com os espaços vazios e ir reequilibrando os sentidos ao longo do texto. Nesta acepção, além de automatizar os processos, o leitor tem que preencher os vazios do texto

com um sentido, chegando a ponto, por exemplo, de trocar completamente o sentido de uma palavra. Bem, isso já pode ser visto na decifração da adivinha acima, mas vamos observar o mesmo processo em um poema para criança, de Francisco Marques (Chico dos Bonecos): 

Essa guloseima de poema traz de cara para a criança duas cenas já no seu título: (1) uma vistosa e gostosa, o bolo e a bala lado a lado; (2) outra sonora, pois a criança ouve aí a semelhança sonora do bolo balofo, com seus dois ôs arredondados, e bala trigueira, com suas duas vogais bem abertas. Então, além de se ver a trivial imagem das duas guloseimas, associa-se de cara uma rivalidade vocálica, porque no jogo das consoantes dá empate. Qual seria o primeiro vazio do poema para corroborar a teoria que citamos, se parece que estamos diante de duas coisas cheias e claras? Para mim, o primeiro esvaziamento é que os dois doces não são mais apenas doces, passam a ser uma rivalidade, um jogo de opostos bem marcados pelos redondos ôs e pelos gritantes ás. Os ôs com seu poder e os ás com seus protestos e irreverências.

O primeiro verso é um show de vazios ainda mais abissais. Note como os adjuntos “da sala” e “das atenções” estão postos após um vazio espacial. Impossível chegar neles sem repetir mentalmente a armação do primeiro verso. Outra coisa é esse inesperado travessão armando uma fala. Ninguém avisou que o bolo vai falar. Nós é que vamos pôr essa ideia nesse vazio. E ele, com sua bazófia, fala de si, com um adjetivo em cada verso. Logo após tasca uma provocação pra cima da bala. Ah, então o “pinguinho de doce” é a bala? Pois é, mais uma vez temos que encher esse vazio, trazendo da leitura do título e de nossa visão de mundo a ideia de bala pra “adivinhar” essa metáfora.

 

O que temos no verso seguinte? Outro travessão sem avisar? Não temos dúvida, quem vai falar é o quase irritado “pinguinho de doce”, a bala. Ela arma sua fala com sua voz irritante, “bela balela”. Os “és” abertos gritam aí, provocam mais do que o bolo, que agora redobram seus “ôs” em “bolo balofo”.

E aí deixo a interpretação com você, leitor! Descubra aí os demais vazios, que eu volto pra teoria. Ah, cuidado para não perder a gostosa sinestesia que fecha o poema! 

Bem, leitura...não importa a comparação, o mais importante é que ela funcione bem. Caso não funcione, é sempre bom checar se não está ocorrendo um destes problemas:

1) Leitor preso na camada sonora, na decifração, na silabação...ah, não dá! É preciso fazer alguma coisa para que a criança aprenda a ler sem depender disso (tem que automatizar a coisa). Primeiro teste: ver onde a leitura enrosca. Peça para a criança dizer quais palavras ou pedacinhos de palavras atrapalham o fluxo de sua leitura. Possivelmente são as sílabas complexas (encontros consonantais, dígrafos, hiatos, ditongos) e as palavras longas ou desconhecidas etc. Visto isso, não tem outro jeito, tem-se que enfrentar a coisa, ou seja, lições e lições para dominar essas sílabas endiabradas. Veja na parte “Prática de sala de aula” que lá temos lições pra isso. Eita, mas saiba de uma coisa: criança não é carro. Treinar automatização de forma automática não dá! É preciso o quê? Veja neste site o conceito de subjetividade, de sujeito.

2) Tá fluindo que é uma maravilha! A criança lê em voz alta como ninguém, mas não sabe dizer o que leu! O que está acontecendo? Ela aprendeu a ligar o piloto automático, mas o piloto real sumiu! Ou seja, não leva nesta viagem suas experiências de vida ou de mundo. Se for isso, ela precisa, durante a pilotagem, associar a leitura às imagens e situações de vida. Também temos exercícios para isso, neste site, mas o jogo subjetivo, o sujeito, também tem aqui um papel crucial.

Ler pode ser muito gostoso, pode ser muito chato! Não existe a ideia de que ler, por si, seja uma coisa prazerosa. Quem é leitor sabe disso. Portanto, se o professor tem suas leituras, tem seus repertórios, com certeza, poderá cativar seus alunos para ler mais e mais. Se só joga o texto como obrigação, possivelmente até os bons leitores vão querer ler suas HQs e livros de aventura longe dele. Qualquer linha teórica que adotemos tem que passar por esse corredor chamado repertório do professor.

 

Se quiser saber mais sobre leitura, procure o livro “Da corporalidade ao domínio da escrita: desafios contemporâneos”, do professor Claudemir Belintane. O capítulo III é só sobre leitura, intitula-se “Da só letração à leitura significativa”. Neste site, há também um artigo sobre “Adivinhas”, que faz essa comparação entre ler e adivinhar, mas aí indo mais longe, evocando o Édipo Rei, o famoso Bilbo Bolseiro em guerra com o Gollum e outros.

O Bolo e a Bala

- Nas festas estou sempre no centro da mesa 

                                                                  da sala 

                                                                  das atenções.

   Grande,

   vistoso!

   Entendeu,

   Pinguinho de Doce?

 

- Bela balela,

   bolo balofo!

   O meu doce tem um papel

   que o seu doce não tem.

   Comigo é assim:

   cada coisa tem seu valor.

   A bala traz o açúcar,

   desembrulhar faz o sabor.

ESPAÇOS VAZIOS