LETRAMENTO

Claudemir Belintane

Trata-se de um conceito bem contemporâneo, que pode ter tantas definições/usos quantos podem ser os interesses dos definidores. De origem anglo-saxônica (literacy), o conceito, num primeiro momento, refere-se à supremacia das sociedades letradas, nas quais o uso da escrita é amplo e bem dominante. Os efeitos da escrita na sociedade, na vida das pessoas, no

cotidiano contemporâneo, produzem ambiências e situações sociais que tornam inevitável a conjunção ou o confronto das pessoas com as exigências da escrita. Trata-se então de reconhecer efeitos e demandas da escrita sobre povos e pessoas a partir de um termo, literacy, que foi traduzido no Brasil com o termo “letramento” e em Portugal como o termo “literacia” (com acento no ci).

Usando o conceito mais próximo de um certo consenso geral, podemos dizer que no Brasil a escola é então a principal agência de letramento, já que uma de suas missões é preparar pessoas, sobretudo as crianças, para lidar com as demandas da escrita na sociedade contemporânea. Além da escola, a própria família pode ser uma outra agência de letramento. 

 

Em alguns países, as igrejas, as religiões também desempenham este papel. Dentre todas essas agências, a escola, dependendo do país, é a mais especializada no assunto, pois situa suas ações de ensinar tendo o uso da escrita como ferramenta principal do ensino.

 

Alfabetizar as crianças, ensiná-las a ler, a escrever e a se situar bem diante dos diversos meios de letramento são missões fundamentais da escola, sobretudo nos anos iniciais da escola básica, quando são sistematizados os processos de ensino dos elementos básicos da escrita. São missões que a escola partilha com a família, com imensas variações (algumas famílias chegam mesmo a alfabetizar a criança em casa e dar-lhe as condições básicas de letramento desejada pela sociedade; em outras (a maioria), as condições de letramento acabam se diferenciando muito das demandas postas pela escola e pela sociedade. Essas diferenças mostram que o envolvimento com a escrita e seus elementos, o universo ou condições de letramento de cada criança, pode ser bem diferente um do outro – alguns autores falam em graus de letramento para apontar essas diferenças.

Em minhas aulas, é muito comum as pessoas perguntarem: letramento e alfabetização são sinônimos? Podemos falar em letramento em vez de alfabetização? Enfim, como relaciono os dois termos?

Muitos autores respondem a estas perguntas insistindo na ideia de que a alfabetização é uma espécie de subconjunto do letramento, pois seria o momento em que a criança adquire os fundamentos da sociedade letrada, quando ela se prepara para conviver com a escrita e se tornar capaz de usá-la e de se posicionar nos diferentes ambientes letrados de seu país e do

mundo. Nesse sentido, uma pessoa, mesmo não dominando a escrita, está sob efeito dela e tensionada pelo mundo da escrita – não haveria, portando letramento de grau zero, ou seja, a escrita de alguma forma está na vida de todos, ajudando ou atrapalhando. Supõe-se que, contando o processo de alfabetização, escolar ou não, as pessoas podem melhorar

significativamente suas condições de letramento, passando de uma suposta condição passiva de convivência com a escrIta para uma também suposta condição ativa.

Nesse processo de relacionar alfabetização e letramento, os professores procuram contextualizar o ensino dos elementos básicos da escrita e os primeiros passos de convívio com os diferentes suportes e meios de expressão da sociedade contemporânea. Seguindo suas tendências (construtivista, sócio-histórica, sóciointeracionista), os professores procuram

pesquisar como é o ambiente de letramento de seus alunos, se a família ou comunidade pratica bastante a leitura e se é comum a presença deste ou daquele suporte de expressão (livros, revistas, televisão, computador, internet, celular etc.) na vida dessas crianças. A partir dessas informações teriam condições de alfabetizá-las mais contextualizadamente de tal modo

que a aluno possa usar mais ativamente a sua escrita e melhorar sua condição de cidadania.

Infelizmente, ao situar o universo/ambiente de letramento das crianças, os professores acabam levando em conta apenas a escrita. De fato, o termo letramento aponta apenas para o universo da letra, da escrita. Se quisermos usar o termo de maneira ampliada e mais adequada à sociedade brasileira, teríamos que ampliar seu uso e inserir aí o conceito de corporalidade - é o que nosso grupo faz.

 

Boa parte dos professores e mesmo os autores de livros didáticos, incluindo aqui os intelectuais que organizam o PNLD (Plano Nacional do Livro Didático), costumam associar ideias de cidadania ao conceito de letramento. Sendo assim, consideram o universo letrado em seus subconjuntos, escolhendo gêneros e textos que supostamente seriam mais essenciais para a vida cidadã. Levam sempre em conta a escrita e quase nunca a oralidade (quando falam em oralidade, em geral, estão se referindo `a fala). Da escrita acabam privilegiando uma diversidade de gêneros que veio se consagrando, entre os quais se destacam textos prosaicos oriundos da publicidade e do cotidiano: anúncios, rótulos de produtos, logomarcas, manuais de brinquedo e de utensílios (textos instrucionais). Trata-se aí de contemplar outro conceito da linguística, que faz referência às funções e aos usos da língua e que, de quebra, tentam contemplar também o conceito de cidadania.

Bem, então, tudo estaria certo: funções e usos da língua, ligadas às ideias de letramento e de cidadania, que permitiriam situar o conjunto de textos ideais para a criança aprender a ler dentro de um contexto bem claro e definido. Com essa diversidade de gênero estar-se- ia contemplando o universo de letramento das crianças brasileiras. Mas, é aí que o professor pode estar muito em dia com a teoria e muito mal situado em relação à infância de seu país.

Nós não concordamos que o letramento, ou ambiência mais propícia, estaria nesses gêneros do cotidiano das famílias. Admitimos sim que de fato a propaganda, as embalagens, rótulos, revistas de banca (em geral de péssima qualidade) e outros sejam de fato o universo de letramento que mais aparece no cotidiano. Só não admitimos que esses textos prosaicos

tenham força para motivar as crianças a lerem mais. Achamos que esses textos são bem propícios para desenvolver a alfabetização funcional, ligada ao uso imediato das palavras, frases e coisas, que não suscitam o desejo de ler textos mais densos e de grande volume.

Por isso, temos nossa própria definição de letramento, voltada para a escola e a criança brasileiras.

Em nossas intervenções, também utilizamos o conceito de letramento, mas o levamos a uma situação paradoxal, pois inserimos nele nosso conceito de corporalidade. Paradoxal no sentido de contrariar um pouco a sua etimologia e seu consenso dominante cuja referência central é a letra, a escrita e não a (corp)oralidade, que praticamente seria seu contrário, pois

sociedade oral seria o mesmo que sociedade sem escrita.

O termo ambiência de corporalidade e de escrita para nós seria suficiente, pois sabemos que as crianças sofrem o efeito da ambiência que a estimula. Em geral, dependendo de sua classe social ou das singularidades de sua família a ambiência vai ao encontro da ambiência escolar, mas também pode ir de encontro a ....e é ai que a escola pública brasileira pode usar mal o

conceito de letramento, sobretudo quando este se refere apenas à escrita.

Podemos incluir no conceito de letramento o que chamamos corporalidade, ou seja, compreender os textos que usam como suporte o próprio corpo, a memória, que são os gêneros ou textos de origem oral (contos populares, contos acumulativos, parlendas, brincos, adivinhas etc.) como a base de um letramento dinâmico. Para nós a primeira tecnologia de textualização e de preservação de textos longos está na corporalidade. Como ela foi e ainda é responsável pela preservação de textos longos (epopeias, narrativas e poesias orais, textos para a infância etc.), consideramos sua função como o fundamento número 1 para a dinamização do alfabeto. A escrita só se tornou dinâmica na história porque já tinha o que escrever, os textos que os homens traziam na memória por meio dessa tecnologia estética (o ritmo, a rima, a repetição, as alegorias etc.) – a estética do oral é nossa primeira tecnologia de expressão e de conservação de textos longos. Por isso a adotamos com tanta convicção no

processo de alfabetização e ensino da leitura, por isso nosso conceito de letramento a inclui como tecnologia complementar da escrita.

Criar uma ambiência rica em textos de origem oral, que podem estar na nossa memória ou nos livros e outros suportes (atualmente, temos muitos no suporte eletrônico, no youtube e outros sites), favorece a inclusão de crianças que vieram para escola sem ter uma relação mais dinâmica com a escrita. Nossa ideia de letramento inclui essa cultura oral, o que pode vir dela,

seja diretamente da memória da comunidade ou mesmo dos livros e de outros suportes presentes na escola ou na própria comunidade.

Para ilustrar, imaginemos duas situações: uma criança da cidade grande, totalmente envolta por outdoors, publicidades em cartazes e folhetos, rótulos de produto, revistas e jornais que os pais leem e outros textos típicos do universo urbano contemporâneo (vistos na TV, na Internet etc.); outra criança vinda da zona rural, ambiente onde circulam pouco material impresso, onde a TV e a Internet não chegam, mas que, para se divertirem à noite, pais, tios e outros membros da comunidade contam histórias, brincam com palavras, cantam modas populares, declamam poesias e ela mesma, a criança, com seus colegas da vizinhança, pratica aquelas brincadeiras mais antigas em que se conjugam corpo e palavra (tumbalacatumba, escravos de jó, fórmulas de escolhas etc.). Qual criança teria maior grau de letramento? Qual estaria mais próxima da escrita? Poderíamos afirmar afoitamente que a primeira criança já está semiletrada, portanto sua alfabetização seria um passinho simples; enquanto que a segunda daria muito mais trabalho?

Para nós, tudo depende de como a escola, os professores, lidam com a escrita/oralidade e com as singularidades de cada aluno ou de cada situação. Se acreditamos que o caminho para a criança se dar bem com a escrita é apenas o do cotidiano urbano, certamente, a criança da roça estaria entre as últimas. Agora, se acreditamos que a corporalidade também faz escrita

(conforme já mostramos acima e em outros textos deste site), a segunda criança poderia contar também com alguma vantagem. Mas, para nós, tudo depende do modo como criança se envolve com os recursos de seu meio (consideramos, por exemplo, que os textos da corporalidade também são elementos fundamentais para o letramento, pois a criança pode

reencontrá-lo em livros e ter o desejo de conhecê-los na escrita). Para nós tudo depende do posicionamento subjetivo da criança diante da corporalidade e da própria escrita. Só o fato de ambas as crianças contarem com um universo rico de letramento ou de corporalidade não é suficiente para dizermos que estão postas as condições para que elas sejam boas leitores.

Tudo depende da maneira como cada criança se posiciona subjetivamente diante das demandas de sua família, da escola e da própria escrita.

Em nossas pesquisas encontramos famílias de professores universitários, de profissionais liberais e de funcionários públicos, que usam a escrita e a informática o tempo todo, cujos filhos precisaram de muito atendimento individual para dominarem minimamente a escrita. Por outro lado, também tivemos filhos de trabalhadores, moradores da favela São Remo, gabaritando testes de leitura.

Para encerrar, reiteramos: o conceito de letramento pode ser muito útil e interessante, mas se o endurecermos na posição de que nele só entram as condições cotidianas de uso da escrita, estaremos limitando e excluindo ricas estratégias para se chegar a uma leitura menos funcional e mais literária e ampla. É sempre bom lembrar que o Brasil tem uma rica herança oral (corporal) e que excluí-la das condições e universos de letramento seria reduzir o potencial de nossas crianças. Vale, portanto, assumirmos o conceito de forma mais ampla e generosa. Tanto a infância como a cultura brasileira são dotadas de uma forte base oral, então é na corporalidade que encontramos as bases do letramento, é a partir da estética mnemônica do oral que conseguimos de fato alavancar uma escrita dinâmica, portanto, nosso letramento é uma espécie de corporalidade-letramento.

ENCONTRAR O AMBIENTE / UNIVERSO DE LETRAMENTO DE UMA CRIANÇA NÃO É UMA TAREFA TÃO ÓBVIA E SIMPLES

LETRAMENTO COM CORPORALIDADE

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