LITERATURA: PRA QUE ISSO, NESTES NOVOS TEMPOS?

 

 

Claudemir Belintane

Não seria melhor a criança, o adolescente e mesmo os adultos se ocuparem de coisas mais úteis? Aprender prioritariamente os conhecimentos importantes para o trabalho, para a vida prática, em vez de se ocuparem com ficção, poesia?! 

  

Quem gosta de literatura e com ela de perto convive sabe que esses queixumes vêm das pessoas que mais precisariam dela. Exatamente por terem desenvolvido uma visão utilitarista de tudo que lhes cai na mão, ficam embasbacado quando um poeta ou um romancista cruzam seus passos apressados com um espandongamento, como este feito por Drummond de Andrade em pleno meio-dia:

(...)

V

Escuta a hora formidável do almoço

na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.

As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.

Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!

Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,

olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.

Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,

mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.

O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.

Multidões que o cruzam não veem. É sem cor e sem cheiro.

Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,

vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,

toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.

Homem depois de homem, mulher, criança, homem,

roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,

homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,

imaginam esperar qualquer coisa,

e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,

últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,

já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.

Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,

o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,

com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,

escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,

errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,

confiar-se ao que bem me importa

do sono.

Escuta o horrível emprego do dia

em todos os países de fala humana,

a falsificação das palavras pingando nos jornais,

o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,

os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,

a constelação das formigas e usurários,

a má poesia, o mau romance,

os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,

o homem feio, de mortal feiúra,

passeando de bote

num sinistro crepúsculo de sábado.

(...) http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/nosso-tempo- drummond/

A poesia atravessa o seu dia, remonta-o, abre nele impensáveis janelas, nenhum Windows útil! Desencontrados, procuramos, inutilmente, encontrar a lógica estival de tudo o que está acontecendo no poema, mas ele nem sempre cede. O romance dá o gozo da aventura, mas esconde o tesouro na linguagem para ser descoberto só depois do depois dessa primeira volúpia.

A literatura é mistério, mas é nela que encontramos outras razões para viver, para purgar, para refazer laços frouxos e reatar laços desfeitos, e tudo isso sem compreendê-la direito. Talvez o que pese para o pragmático é essa dificuldade de errar o passo, de olhar de soslaio por mais de um minuto, de reparar que os sabiás voltaram em setembro, que os tico-ticos continuam chocando alheios chupins e que as aves que aqui gorjeiam também desgorjeiam fácil e que, de repente, uma flor pode nascer no asfalto e é preciso protegê-la.

Mas, cá entre nós, que isso ninguém nos ouça: a literatura é muito útil nessa nossa lavoura educativa. Mas não útil para ensinar gramática ou dar conselho virtuoso, é mais pra fertilizar! É útil pra desguiar a criança e o jovem do bom caminho familionário, ensiná-los a caçar saci com peneira de cruzeta, a jogar adivinha no escuro com um demônio do outro mundo, a saber que foi lá nas árabias que um certo rei ouviu mil e uma histórias e levá-los ainda a saber que quem de fato trouxe o fogo aos homens foi o Ai´repudo, um moleque xavante, que roubou brasa do avô onça e levou para a tribo.

Já vi adolescente em sala de aula muito feliz por ter descoberto o beco onde ficavam os Meirinhos no tempo no primeiro império. Também senti vibrações boas com a leitura de poemas de Gregório de Matos (com seus frades, freiras e putas), também quando a turma acompanhou comigo o Pastor Dirceu fazendo de feno o leito de seu primeiro amor com Marília. E Gonçalves Dias ruflando tambores nas selvas?! E a musicalidade gostosa dos “verdes mares bravios de minha terra natal”?! Não dá pra esquecer também os meninos e as meninas do segundo colegial, bem vestidos, no teatro, juntamente com Bentinho, nosso Iago, descobrindo seu drama no drama de Shakespeare. Entrar num livro, vazar barreiras temporais! A literatura segura a pressa do tempo que corre com o tráfego e permite outras viagens, outras geografias e tempos. Com isso abre ao sujeito certas experiências impossíveis de serem vividas na prática, como preparar e cometer o assassinato de uma velhinha usurária e sofrer o castigo da culpa, ou acompanhar os devaneios de uma mulher romântica até seu suicídio. A leitura de um bom romance é uma experiência no sentido mais antigo da palavra, quando esta é tomada como revelação do inusitado, esplendor de milagres e de iluminações diante do estranho.  

O ESTRANHO E A DANGEROSÍSSIMA VIAGEM

Aliás, é justamente esse estranho, esse algo que irrompe e corta nossos passos, interdita nossa mediocridade, que mais interessa ao homem. Em 1930 Freud escreveu, em seu famoso “Mal Estar na Civilização”, que o homem consegue avançar muito em sua busca tecnológica, mas não avança quase nada na arte de conhecer o outro, de descobrir-se a si mesmo. Drummond disse a mesma coisa no poema “O homem e as viagens”, mas, como é poeta, pôs aí uma outra ênfase:

Resumo das versos anteriores : após fazer todas as viagens espaciais possíveis com seus engenhos bem equipados, resta ao homem uma última tarefa:

(...)

Ao acabarem todos

Só resta ao homem

(estará equipado?)

A difícil dangerosíssima viagem

De si a si mesmo:

Pôr o pé no chão

Do seu coração

Experimentar

Colonizar

Humanizar

O homem

Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas

A perene, insuspeitada alegria

De com-viver.

(do livro CORPO)

Esse retrocesso humano ou empacamento psíquico diante dos diferentes modos de ser gente, estamos vendo hoje no Congresso brasileiro. Deputados evangélicos e defensores sabe-se lá de que antiga ordem, instrumentalizados pelos donos do mundo financeiro, investem suas energias contra as frágeis conquistas nos campos das justiça social e das liberdades necessárias – não teria faltado literatura aí nesses miolos?

Não faltaria aí a dangerosíssima viagem de si a si mesmo? A literatura é uma nave leve para essas viagens e de baixíssimo custo.

A LITERATURA NÃO PODE PERDER LUGAR PARA OS TEXTOS PRAGMÁTICOS E ÚTEIS DO COTIDIANO

Muitos escritores já revelaram que o óbvio é perigoso. Diante dele, convém um sobressalto, um recuo, uma voltinha a mais antes de apreendê-lo. Parece muito certo que uma criança tenha que aprender os textos mais úteis do cotidiano, por exemplo, identificar no rótulo de um produto os ingredientes perniciosos à saúde, compreender como funciona seu brinquedo lendo um texto instrucional, saber escrever uma carta para, em momentos de aperto, conseguir chamar a atenção de outros adultos, preencher um cheque para servir a avozinha que não enxerga mais etc., mas há algo mais premente e mais astucioso para que a criança tenha leitura suficiente para ler bem qualquer texto do cotidiano e ao mesmo tempo educar-se como cidadã de um mundo menos pragmático, mais sutil no trato com as diferenças. Assusta-me essa entrada útil na escrita. Prefiro, como diz Manoel de Barros, o desútil. Infelizmente, nesse “nosso tempo” de “homens partidos” isso vem acontecendo nos livros didáticos e nas referências fornecidas pelos textos que vêm do Ministério da Educação. Uma praga de pragmatismo.

Agora falando naquele útil lá detrás, no útil que está ligado ao agradável, a literatura é excelente, talvez o único caminho para formar leitores de grandes textos, leitores de fôlego, capazes de ampliar suas habilidades para estudos das filosofias, das ciências e das artes. Como diz Ortega y Gasset, por trás de todo escritor, poeta, filósofo, cientista, sorri uma criança sonhadora, que fez as mais incríveis viagens de si a si mesmo na nave da literatura.

Links para aprofundar:

1. Entrevista : Ouvir histórias e lendas é essencial para processo de alfabetização (uol educação)

2. Segundo capítulo do livro “Oralidade e Alfabetização” de Claudemir Belintane (Editora Cortez)