NOVAS (E VELHAS TECNOLOGIAS?) NA ESCOLA

Claudemir Belintane

A educação sempre suportou o debate das tecnologias novas que “precisam modernizar” o ensino. Imagino o escriba da mesopotâmia, no II milênio a.C,  cioso de sua profissão, que consistia em ensinar a ler e a escrever a escrita cuneiforme por fases. Primeiro ele ensinava a fazer as plaquinhas de argila (faziam o suporte de expressão) e a desbastar até deixar triangular uma das pontas de uma vareta de junco, para fabricar o cálamo (instrumento de escrita, lápis da época).  Após, o aluno se dedicava a copiar a escrita do mestre, em geral, o acervo de texto, que se compunha de nomes de Deuses, trechos literários, provérbios, alguns termos técnicos da época (Walker, 1996  p. 57). Imagino a reação do escriba quando começam a surgir materiais em couro (pergaminho) com outro formato, o rolo. Ou ainda a situação do escriba que sabia como editar seu texto para facilitar a ler o rolo, mas acaba se deparando com alguém propondo uma escrita em códice (livro com lombada) – aliás, no youtube, temos um divertido filme que mostra essa situação: um escriba medieval acostumado à leitura no volumem (obra escrita no formato de rolo)  recebe um help-desk da época para ajudá-lo a manipular o códice (livro encadernado, com lombada). O monge do rolo, sem saber manipular o códice, escuta meio sem vontade o help-desk explicando como abrir o livro, virar a capa, passar de uma folha para outra, enfim, ensina-o a dominar a nova tecnologia. Vale a pena ver, é bem instrutivo e muito divertido, aí vai o link: https://www.youtube.com/watch?v=4ZwJZNAU-hE

Não foi diferente com a chegada do rádio, da TV, dos audiovisuais, dos gravadores, filmadoras etc.  Não raro, nas escolas contemporâneos assistimos a entusiasmados vendedores mostrando aos professores o quão promissora poderia ser a utilização do celular em sala de aula, cuja técnica já tem nome e procura se constituir enquanto área de pesquisa, “mobil learn”  ou ainda as ofertas (caríssimas) de lousas digitais, uso de tablets e outras.  Alguns chegam a dizer que a entrada na nova tecnologia é a grande solução para uma educação de qualidade.

Como podemos pensar essas ofertas, essas possibilidades inovadoras?

Talvez seja interessante pensar a essência das tecnologias e suas finalidades, mas levando em consideração as mais basilares. A tecnologia mais vital e básica da educação é a interação entre alunos e entre estes e adultos educadores e sua finalidade mais precípua é a possibilidade de uma dinâmica de conhecimento e de interações que põe em jogo os conhecimentos mais fundamentais da humanidade. 

Outro corte importante na temática está na pertinência da tecnologia em relação a uma área. Em vez de conhecermos a tecnologia pela tecnologia, podemos fazer um esforço para interpretar os poderes e alcances da nova tecnologia a partir de sua área de ensino e pesquisa. Por exemplo, nós que ensinamos língua portuguesa, que alfabetizamos, podemos pensar a nova tecnologia a partir da história e dos potenciais dos estudos de linguagem, com ou sem as novas tecnologias. Posso pensar um editor de texto (como o word), um software de apresentação, (como o power-point ou), cotejando cada um de seus comados à tecnologia tradicional da área:

- Os comandos “salvar”, “recortar”, “colar”, “formatar” etc. em relação ao uso no suporte gráfico apresentam quais diferenças. Como eu salvava antes? Como eu recortava e colava no suporte gráfico?

- Como eu fazia apresentações antes? Retroprojetor, lousa, cartazes etc. ? Quais são as vantagens do novo recurso?

Os textos produzidos na máquina de escrever ou mesmo a mão ou ainda as aulas e apresentações feitas usando a tecnologia tradicional possuíam níveis baixos? Podem ser comparadas com as de hoje?  As obras do passado são menos interessantes que as produzidas hoje?

A reflexão parece boba, mas vai colocando cada coisa em seu lugar. As tecnologias atuais são ricas, importantes, abrem incríveis possibilidades, mas aprender, criar, produzir grandes obras não são resultados exclusivos de novas tecnologias. Havelock (por exemplo, diz que as sociedades orais (de antes da escrita), deixaram um legado de extrema importância para a humanidade sem o qual o avanço nas ciências, nas artes e no conhecimento em geral seriam inimagináveis. Fizeram isso com suas rudimentares (ou sofisticadíssimas?) técnicas orais: Se nossos antepassados foram mais cultos do que somos, teria sido porque aprenderam a falar bem muito antes de lerem bem, adquirindo um amplo vocabulário por meio da prática retórica (p. 28).

Tomando um só exemplo: Sócrates, grande mestre do oral, não usava os livros, que na sua época já eram abundantes. Chegava mesmo a duvidar do papel deles, pois dizia que um livro afirma sempre a mesma coisa, repete sempre o mesmo texto e que é bem diferente de um filósofo, pois este não repete e é capaz de dizer outras coisas, acrescentando, subtraindo, ajustando o texto ao locutor, ali ao vivo, in praesentia. Pois é, estamos tão acostumados às virtudes do livro que raramente pensaríamos neste poder do mestre, do professor presencial. 

De fato, quando pensamos nos grandes filósofos, cientistas, matemáticos e artistas do passado, temo-los como grandes mananciais do conhecimento. Raramente, pensamos que eles compunham e  escreviam usando equipamentos bem rudimentares, como a pena e a tinta sobre folhas nada dóceis. Mesmo hoje, os grandes intelectuais das tecnologias mais ousadas tiveram boa parte de suas formações em cima de volumosos livros, escritos na milenar tecnologia do alfabeto.

Todos eles, sejam os da oralidade ou os da escrita, em vez de HD, processadores, hiperlinks e redes, usavam seus “hardwares” naturais e expandiam seus “softwares” com os recursos que tinham em mãos, a linguagem,  a presença do outro e a interação.

Claro que em todos os tempos as novidades tecnológicas foram cruciais e importantes. Mesmo considerando a bela fala de Sócrates (e temos que considerar sempre essas heresias diante dos primores das novas tecnologias), a escrita incorporou a oralidade e com ela ampliou e levou mais longe o conhecimento (quase disse democratizou, o que seria bem duvidoso!). Do mesmo modo, podemos pensar em Shakespeare, Victor Hugo, Hegel, Kant, Freud às duras penas (literalmente), produzindo obras maravilhosas, mas não ignoramos o fato de que das novas tecnologias outros conhecimentos de grande valor já estão surgindo. Não ignoramos também que muito provavelmente esses novas autores se nutriram de conhecimentos bem antigos e, talvez, até tenham lançado mão dessas ainda mais antigas técnicas intelectuais (memorização, oralidade, repetição, alegorias etc.)

Então, claro que a tecnologia é muita boa para a educação! Entretanto, é preciso introduzi-la com parcimônia e sabedoria e não de afogadilho, com a pressa dos inovadores intransigentes que pensam que a história da humanidade é uma sucessão de mortes e nascimentos.

Um exemplo já dá aqui um clarão pra nós: o que é prioridade para uma criança na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, um celular, um tablete ou criar situações em que ela possa usar bem todos os seus sentidos naturais.  Ir no Instituto Butantã e alertar às crianças para que fotografem tudo com seus celulares?  Ou pedir a elas que exercitem os olhos, os ouvidos e a convivência durante o passeio? Fico e ficarei sempre com a segunda opção.

A escola é antes de tudo o lugar da convivência, da interação (como nos tempos de Sócrates), da experimentação (como nos tempos dos antigos astrônomos, botânicos e alquimistas) e do ouvido afinado (como os tempos pré-homéricos), do uso do lápis de cor e da folha de papel (como nos tempos de Picasso), do processo de composição que usa memória e registro (memorizar um poema para fazer outro) como nos tempos de Gregório de Matos.

Portanto, antes de contratar o projeto ufanista de mobil learn, de TI que gera o sujeito autônomo etc. , procure ver se sua escola está fazendo bem as funções mais tradicionais e essenciais do ensino.

 

 

Havelock, E. A equação oralidade-cultura escrita: uma fórmula para a mente moderna. In. Olson, D. e Torrance, N. Cultura Escrita e Oralidade:  São Paulo: Editora Ática, 1995 (pp. 17-34)

Walker, C.B.F. O Cuneiforme. In. Hooker, J.T.Lendo o passado: do cuneiforme ao alfabeto. História da escrita antiga. São Paulo: Edusp/ Melhoramentos, 1996 (pp. 19-93)

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