DO CHÃO DA ESCOLA

O QUE É PERFORMANCE/CORPORALIDADE?

POR QUE O CONCEITO DE ORALIDADE É NOVIDADE?

COMO A ORALIDADE PODE CONTRIBUIR COM A ALFABETIZAÇÃO?

QUE RELAÇÃO A ORALIDADE/CORPORALIDADE TERIA COM O CONCEITO LETRAMENTO?

Alfabetizar, ensinar a leitura, a partir da oralidade é uma novidade absoluta na Educação Brasileira. A ideia nasceu do “chão da escola”, de pesquisas que mergulharam nas grandes demandas que hoje se evidenciam nas avaliações internacionais, nacionais e regionais (PISA, Prova Brasil, ANA, SARESP etc.). O Grupo Oralidade e Escrita (GOLES) acompanhou muitas turmas de crianças desde a série inicial até o quinto ano. Temos constatado que é possível melhorar bastante a situação das turmas quando lançamos mão deste nosso conceito de oralidade.

O conceito é novidade porque difere das ideias tradicionais de oralidade para as quais toda emissão de fala seria oralidade. Consideramos oralidade aquele conjunto de gêneros discursivos, em geral,  oriundos da tradição oral, nos quais encontramos textos formulares, capazes de aderir facilmente na memória das pessoas (narrativas, textos com rima, ritmo, paralelismos,etc.). – textos construídos a partir da função poética e/ou da narratividade) quando são tomado em uma performance, uma apresentação, na qual figurem um apresentador (brincante, contador, propositor – a nomeação depende do gênero) e um ou mais espectadores ou participantes.  Contar uma história, por exemplo, é colocar em prática a oralidade, o mesmo não ocorre se a mesma história for lida em voz alta. Para nós, a performance é o elemento que marca a oralidade, pois na essência estamos nos referindo ao processo de memorizar, retextualizar, declamar, narrar, apresentar, formular, reformular etc., mas tudo de memória, apostando na estética do texto e da performance.

A performance é também o que chamamos corporalidade, quando, em vez de usar um suporte escrito (um livro, anotações, projeção etc.), o autor parte de sua memória, de sua capacidade de expressão e explora a camada estética do texto e o estilo do gênero. Por exemplo, posso propor uma adivinha por escrito, mas tradicionalmente elas são propostas de memória, em tom provocativo em que o autor propõe a brincadeira, espera a reação da platéia e repete mais três ou quatro vezes para o interlocutor memorizar o texto. Cada gênero tem seu estilo, seu modo, sua performance, que é explorada pelo autor.

Nossa premissa coloca em relevo a ideia de que a entrada da criança na escrita pode ser dar a partir dessa oralidade performática, dessa corporalidade. Sabemos que as crianças (mesmo adolescentes e até adultos) gostam muito de ouvir e de serem provocados por narrativas, por brincadeiras e jogos orais. Temos constatado em nossas pesquisas que os alunos que mais leem, que encaram livros volumosos, em geral, são também aqueles que tiveram uma oralidade rica em casa ou na escola. Constatamos também que é possível construir um programa que coloque toda a entrada na escrita em um jogo dinâmico com a oralidade.

 

Contar uma história diferente, tirada por exemplo do folclore brasileiro, como  “O mito do fogo na tribo xavante”, depois trabalhar uma versão escrita ou fragmentos e passagens do texto, com certeza motiva muito a entrada na escrita. Em nosso Projeto CAPES/OBEDUC(2011-2914), trabalhávamos, desde as séries iniciais, com histórias longas e já motivávamos os alunos a terem contatos com grandes livros e autores que lidam com mitos, histórias fantásticas, contos maravilhosos, aventuras etc. Também exploramos a função poética de maneira geral, quer as de origem oral sem autoria, que está presente em diversos gêneros da tradição infantil (por exemplo as parlendas responsivas  do tipo “Cadê o toucinho daqui?”, as pegadinhas, quadrinhas e outros) quer poemas de autoria (que em geral se baseiam na cultura popular – Veja José Paulo Paes, Ricardo Azevedo e outros). Repare como  a brincadeira abaixo, que se dá a partir da rima e da criação de uma estrofe, anima a criança a criar e a produzir texto, mesmo quando ela ainda não domina a escrita:

- Não me olhe de frente,

Que eu não sou seu parente.

- Não me olhe de lado,

Que eu não sou melado.

- Não me olhe no nariz,

Que eu não infeliz.

- Não me olhe no pé

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Não me olhe _________

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Se a gente definir letramento como o envolvimento da criança com o universo da escrita, seja ele aquele conjunto de gêneros escritos que frequentam de forma quase inevitável seu cotidiano urbano (cartazes publicitários, rótulos de produto, escritas nas roupas, placas de trânsito, outdoors etc.), sejam aqueles gêneros especialmente elaborados para a infância, mas que a escola os propõe apenas como escrita (revistinhas, HQs, livros infantis etc.), a oralidade em si, tal como a definimos aqui não teria grandes relações com o letramento. Mas se observarmos mais de perto, desde o berço, os gêneros que mais tocam a criança, que a ajudam a entrar na língua e na linguagem (com gestos, mímicas e outras brincadeiras) estão no campo do oral (cantigas de ninar, brincos, parlendas, musicas, contos etc.). Então, podemos enxergar o universo de letramento como uma dinâmica necessária e fundamental entre a oralidade/corporalidade e a escrita.

 

A oralidade, desde muito cedo, pode ser a grande chave para a entrada da criança no letramento escrito mais elaborado (contos, poesias, aventuras etc.). São suas atividades de textualização que ensinam a criança a dominar o corpo (também por isso a chamamos corporalidade). Uma criança que ouve uma história, dela participa e tenta recontá-la ou então que brinca atenciosamente com um jogo oral (“Escravos de Jó”, “Corre cutia”) está adquirindo uma corporalidade para o mundo da escrita e da leitura. Para ler é preciso ficar quieto, sossegar as energias mais brabas. Então, a contribuição pode mesmo ser vital e até evitar que a criança seja rotulada de portadora de TDAH e convidada a tomar Ritalina ou Conserta já aos quatro anos de idade.  Não é demais repetir: a boa oralidade/corporalidade ajuda a sossegar a criança, mesmo as feras.

 

Por tudo o que que constatamos em nossa pesquisa, insistimos que nosso conceito de ORALIDADE É NOVIDADE, É UMA NOVA ABORDAGEM DA RELAÇÃO ORALIDADE ESCRITA. Para aprofundar mais esse conceito e seu uso no ensino, leia o livro de nossa autoria: "Oralidade e alfabetização: uma nova abordagem da alfabetização e do letramento"  (Editora Cortez, 2013)