Polêmicas

DE COMO DUPIN PERCEBEU A LÓGICA DO MINISTRO CHANTAGISTA 

(UMA REFLEXÃO SOBRE NOSSAS POSIÇÕES POLÍTICAS)

Claudemir Belintane

Professor Sênior da Faculdade de Educação da USP

No conto “A carta roubada” de Edgar Alan Poe (1844), Auguste Dupin, precursor de todos os detetives, enfrenta o ministro D, que além de matemático era poeta.  O ministro surrupia uma carta secreta bem diante dos olhos da destinatária, sua majestade, a rainha! Ela não pôde reclamar, o rei estava no mesmo aposento, se ela reclamasse, o marido poderia ter acesso à carta. Notem que não é bem um roubo, nem propriamente um furto, mas uma apropriação chantagista sob o olhar da vítima. A rainha sabe que, de posse da carta, o ministro terá todas as chances para chantageá-la e é com essa intenção que ele se adianta e se torna guardião da correspondência, cujo conteúdo secreto o leitor não saberá (um possível amante?!), pois só o envelope com seu destinatário é que interessa ao narrador. O conteúdo da carta interessaria ao rei, mas este praticamente não entra em cena, é puro não-saber!

A rainha põe sua confiança em um experiente inspetor de polícia, que mesmo usando toda a lógica cartesiana da inteligência da policia francesa, não consegue tirar a carta do ministro malaco. E aí, Dupin, munido de uma outra lógica, entra na jogada e consegue subtrair o trunfo do chantagista.

Dupin sabia que o Ministro, como matreiro matemático, conhece bem a lógica da polícia francesa. Para esconder a carta em sua casa,  imaginou detalhadamente as técnicas de vasculhamentos minuciosos da polícia. A tradição policial prevê que seus investigadores sejam sagazes o suficiente para auscultar esconderijos em lugares bem inusitados, como por exemplo, o interior da madeira da cabeceira de uma cama.

O que faz o ministro pra subverter essa lógica da polícia?

Vira a carta para o avesso, muda o destinatário e, em vez de escondê-la, deixa-a sobre sua mesa à vista de todos os que ali entram. Bem, ali entra Dupin, que sabendo do outro polo da vida do ministro, a pegada poético, põe-se no lugar dele e dali tira a certeza de que esconder bem uma carta para um poeta poderia ser paradoxal: escondê-la não escondendo. Em uma visita rápida ao ministro, Dupin constata o envelope revirado sobre a mesa e, numa segunda visita, dá um jeito de surrupiá-lo deixando uma cópia idêntica em seu lugar, jogando o ministro para a condição de não-saber. A partir daí ele não tem mais a carta e não sabe que não a tem. A carta “real” é entregue ao inspetor de polícia, que por sua vez a entrega à rainha, tudo sem que o leitor saiba o conteúdo da carta.

Talvez seja este o conto policial mais brilhante da literatura universal!

Lacan usa espertamente o conto para ilustrar o significante psíquico, que está ali na obviedade da fala e da vista, mas que se mantém imperceptível graças mesmo a essa insuspeição do que está à mostra. O trabalho do escritor e do artista é também neste eixo, revolver o óbvio para que ele seja revisto e percebido de uma outra maneira.

Em geral nos iludimos cotidianamente com uma lógica alética  simplória (lógica do “sim” ou “não”; do “verdadeiro ou falso”; do “é versus não é”), que é sustentada com base em pressuposições religiosas e sentimentais, que até tentam nos induzir a certa aparência de complexidade. 

É o que vamos ver na política contemporânea. Como é fácil acreditar nos escondidos e como é difícil detectar o óbvio e mesmo relacionar um fato com outro na superfície dos acontecimentos.

A carta “desescondida” sobre a mesa parece até indicar certa ausência de lógica, pois de fato é muito simples, como é de simplicidade quase banal adivinhar que os objetos caem sobre a terra porque uma força  puxa o corpo menor sobre o maior, contudo para pensadores contemporâneos, essa lógica não é nada simplória, pra chegar a ela tivemos que atravessar alguns séculos de impregnação de uma outra lógica, mais direta, mais pragmática, mais reducionista, cujo pano de fundo, como muito bem enxerga Nietzsche, é a fé, o arredondamento das arestas do mundo pelos tornos e entornos dos Deuses.

“Uma coisa só é boa se ela for eternamente boa!” “Se deixou de ser boa, será condenada ao inferno!”

“Mas, espere aí, essa coisa eternamente boa não existe!?”. “Claro que não! Mas não seria ela a mira que se aponta pra novos horizontes?”

“Entendo, é um eternamente bom só pra gente mirar, tomar como horizonte, mas que na realidade é imperfeita e nunca será boa!?”

Pretendo trazer essa reflexão para a política sobretudo para reler as considerações que elaboramos cotidianamente sobre a composição do quadro partidário brasileiro e nossos posicionamentos em relação ao espectro esquerda-centro-direita.

A esquerda é um campo complexo, cheio de tensões, difícil de definir, que tem uma história multifacetada, cuja apreensão em uma só palavra ou um só conceito parece impossível. Mas, se a gente a puser na contraposição com uma esquerda imaginária, “eternamente boa”, deduzimos com facilidade que a que temos não é nada boa, que precisa ser reformulada. O PT seria ainda pior nisso tudo, não? Pois é o partido que esteve no poder, acusado, julgado e condenado (ainda que juristas de boa parte do mundo mostrem que essas condenações foram políticas!). Segundo certo idealismo, era pra ter sido eternamente bom, certo?! Deveria ter se mantido na linha, não? Mas não se manteve! Então, por ter figurado na cabeça de muitos analistas que têm o eternamente bom como mira, será então julgado com mais severidade do que os outros?! Toda a experiência da esquerda e do partido nessa lida histórica com as arestas pontudas da política não serviria pra nada mais?! O idealismo diz: errou, morreu!

Como os detetives da rainha que escarafuncharam o apartamento do ministro, inclusive os paus da cabeceira da cama onde ele dormia e nada encontraram a não ser o limite óbvio dessa lógica de investigação, procuramos também a carta sem saber que ela poderia ter sido virada ao avesso e sorrateiramente deixada sobre a mesa. Para compreender um pouco melhor a lógica partidária, temos que levar em conta que as correlações de força na política não são exclusivamente racionais, não seriam só coisas de “matemático”. Devemos incluir aí também “os poetas”, que gostam de paradoxo, do “é, mas não é”, do para além de Parmênides.

O que aprendemos com essa lógica de Dupin é que há um óbvio que ulula: partidos e esquerdas são feitos de gente e de situações humanas bem complexas! Se por tradição cristã, prometeram que seriam bons para sempre, e não o foram, estamos diante de uma situação discursiva em que um partido ou grupo político seria obrigado a dizer o que o outro quer ouvir em sua tradição católica. “Diga que o partido será eternamente bom, que eu, mesmo sabendo que isso não é possível, finjo crer nisso e nós, por uns tempos, trocaremos carinhos mútuos”.  Finja que não vê que alguém pegou a carta na sua frente, pois se você gritar, um terceiro ali presente ficará sabendo e aí sua posição estará ameaçada.

Se concebemos a esquerda e o PT num contraponto com partidos e movimentos ideais não conseguiremos nunca enxergar a complexidade das situações e, consequentemente, a chance de amadurecimento do pensamento político pra um nível mais Dupin será mínima.

A complexidade não é muito compatível com o aparelhamento do homem para a vida (Freud expressou isso desta forma: “os homens não são espontaneamente amantes do trabalho!”[1]). Somos reducionistas quase que por natureza: se não reduzo o caudal de informações que me chegam cotidianamente aos sentidos a nomes e esquemas gerais, minha mente ficaria exausta, sobrecarregada – a memória RAM não aguentaria! Então, por termos sido banidos da natureza, somos especialistas em reducionismos, em deixar de lado os detalhes e ficar apenas com os traços gerais das coisas e ideias. Estudar ou analisar um caso é justamente tentar repor os detalhes pra sair do “esquemismo”! Repondo os detalhes perdidos conseguiremos enxergar até o óbvio ululante!

Levando também em conta que o ministro talvez tenha virado o envelope pelo avesso e o tenha displicentemente jogado sobre sua mesa, quem sabe possamos admitir uma obviedade: que qualquer partido ou movimento políticos seja demasiadamente humano pra conseguir se manter puro, que sempre vai encontrar pela frente, além de prevaricadores em suas próprias fileiras,  um tal Centrão, Aécios, Cunhas e Temeres, e que se não conseguir manter o apoio da maioria no Congresso, a possibilidade de continuar em pé será mínima.

Talvez, então, a chance que temos para compreender a dinâmica de um partido em ascensão não deva ser pelo cotejo com o divino, com o ideal (este vai sempre existir, mesmo que a gente não queira, é a tentação do humano por excelência!), mas pela expectativa de ações que levam em conta sempre essas arestas complicadas, centrões e políticos corruptos, que também são heranças atávicas do povo brasileiro.  Quando Lula, Dirceu, Genoíno, Gushiken - esquerdistas e petistas – tinham que negociar pra manter a maioria no Congresso, encontraram pela frente não apenas Roberto Jeferson e a turma do centrão, mas uma grande parcela da população brasileira, ali, travestida na rapinagem consagrada do congresso. Lidar com esses bandidos é também lidar com uma parcela muito significativa do povo brasileiro, que escolhe esses monstros como seus representantes.  Mesmo este desgoverno, que pra se diferenciar do PT, disse que não negociaria com o tal centrão, arreou as calças e está aí num toma-lá-dá-cá dos mais vergonhosos.

Então, cartas na mesa! É claro que após três mandatos e pouco, nenhum partido no mundo conseguiria sair ileso da jornada, né? Como lidar com essa parcela da população brasileira sem meter a mão na cumbuca?! Você, em sua santidade, conseguiria? Conseguiria governar nesta república de coalizão sem a coalizão partidária? Foi Lula e Dilma que puseram Temer, PL, PMDB e outros ou foram as configurações gerais do povo brasileiro? Este já é um dos avessos das cartas sobre a mesa. Não é preciso procurar nos paus da cama, a coisa é clara e escancarada: uma parcela significativa da população brasileira está aí até hoje exibindo seus 30% de apoio ao Bolsonarismo e, por alguma clara coincidência, é este também o percentual de evangélicos do país.

Aos que esperavam, então, um partido asséptico, puro e revolucionário, viram nas coalizações todas - como os gregos viram recentemente com o seu Syriza – alguns avanços importantes, mas também muitos recuos e concessões. Nas eleições de 2019, a população grega reelegeu o partido de centro-direita, rejeitando o Syriza. Parece que o partido que muito prometia perdeu o encanto após ter dado murros em ponta de faca com a direita e o neoliberalismo. É bem provável que uma parte da população grega tenha lá seus políticos escolados na sabedoria popular do “rouba, mas faz” ou do “é esperto! Se fosse eu, faria o mesmo!”.

Solidariedade (Solidarnorsk polonês), PT, Syriza e tantos outros partidos de esquerda que surgem com grandes esperanças terão sempre que lidar com o próprio e inevitável deterioramento. Mas e o povo, sobretudo os cidadãos mais conscientes, lidam também como esse deterioramento? Ou são dotados daquele lugar comum que o “novo” é que vai nos redimir? Vimos muito isso no cinema, o ´pistoleiro que chega sozinho na cidadezinha do velho Oeste para resolver a questão! O Rambo, o Duro de Matar, esses filmes canalhas que a Globo exibe cotidianamente como cartas abertas para reforçar a ideia de que um paladino bem armado chegará, desrespeitará as leis e resolverá as pendengas todas. Estamos bem marcados por estas eternas esperas, aliás, nossa tradição cristã é exatamente isso – Cristo é o que veio sozinho pra nos salvar e se espera que ele volte para salvar mais completamente o rebanho todo! Mitologia milenar sempre reperpetuada!

Para continuar nosso raciocínio, vamos pôr sobre a mesa também os profissionais e midias que se empenham em  destruir esse ou aquele partido, como os Bonners da Globo e os pseudojornalistas de tantas outras midias cujas especialidades enfeixam-se num plantão permanente de queima de tudo o que não seja neoliberal – claro, aí mais uma vez, por ter estado no poder, o PT é sempre a bola da vez. A grande mídia põe uma carta mais que clara em suas preferências. Reparem na força e na sistematicidade da crítica delas a Bolsonaro e  comparem com o que fizeram e ainda fazem contra o PT.  A Globo tem até uma pequena vinheta para aceitar o contraditório quando critica alguns grupos políticos e até mesmo Bolsonaro, mas quando critica Lula e o PT, essa vinheta é suprimida. Um outro óbvio mais que ululante: por que a Globo, a Band, a Record, a TV Cultura e mesmo os grandes jornais não entrevistam mais o ex-presidente Lula mesmo no auge de suas polêmicas? Só não vê quem não quer, quem está muito ocupado no pau das camas, mas a coisa é estival, as mídias televisivas tem uma missão bem objetiva: silenciar o PT, colocá-lo no esquecimento, jogar sobre ele apenas notícias negativas e pesadas e, mesmo quando anuncia que Lula foi absolvido deste ou daquele processo, o faz de cantinho de boca, sopradinho lá na Globo News onde o povo não vai.

A estratégia do global Ministro D é essa mesma, fazer o povo crer que há muita coisa escondida no oco do pau da cama, pra que ninguém se interesse pelas cartas deixadas sobre escrivaninhas por Bonners, Moros e Dallagnóis.  E há cartas grandes, salientes, coloridas e nem estão no avesso: Aécio, Jucá, Calheiros, Serra, Aloysio, Alckmin, Mendonça Filho, Temer, Rodrigo Maia (com toda a família, do sogro ao pai) e outros com seus crimes prescrevendo sobre pegadas muito bem salientes (gravação de áudio, “offshores” luminosos, malas de dinheiro em apartamento etc.) e, neste momento,  com todas as cartas abertas, a família Bolsonaro e seu escondidinho de carne podre e fétida: Queiroz. Mas as investigações minuciosas feitas pela política dos EUA apontam sempre que a culpa é do PT, embora ao furar o pau da cama, encontraram um grande ninho de tucanos.  Fecharam correndo o buraco e continuaram apontando para o PT, mas não adiantou muito porque bicos e penas ficaram aparecendo! Contudo, a mídia repercutiu tanto, focou com tanta precisão a estrela rebelde que chegou a popularizar a pergunta, “mas e o PT?”  A expressão tornou-se um refrão de bolsonaristas quando querem defender os milicianos que ocupam o palácio o fazem por esta estranha contraposição.

Sobre a mesa, brilhando sem serem reviradas, temos muitas cartas, que não interessam muito à leitura do neoliberalismo das grandes mídias e a críticos que acham, por certa tradição lógica, que a culpa é sempre do PT, pois, segundo suas desconfianças de polícia francesa,  haveria muitas coisas escondidas e as claras não interessam tanto. Supor que há um escondido profundo no pau das camas é uma forma de não aceitar o que brilha e rebrilha sobre a mesa. Vejamos algumas cartas bem abertas cujo conteúdo parece não interessar nem ao Rei, nem a um possível jornalismo investigativo:

- Como pode um juiz presidir sessões do STF e assumir o apelido do processo (dado por uma das partes e intensificado pela mídia), “mensalão” (era a ação penal 470)? Quando o juiz aceita o apelido e a ele se refere durante os julgamentos ou em entrevistas na midia, já condenou antes de julgar, não?!  Este é um óbvio mais que ululante, mas o neoliberalismo estava aí para não deixar a obviedade falar. Agora o Ação Penal 470 está sendo revista em suas partes e vem se notando obviedades que não se cogitavam antes, pois havia muita pressa na condenação;

- A gravação feita por Sérgio Machado onde Jucá, Calheiros, Sarney e outros preparam o golpe contra Dilma. Dizem com todas as letras em cartas abertas que o golpe estancaria “a sangria” (ou seja, a lava-jato deixaria de persegui-los com Temer no poder e ficaria só com o PT) e isso deu muito certo! Dilma caiu e eles continuam elegíveis e com suas boas malas em seus apartamentos;

- O envolvimento de Fux e Barroso com os procuradores da Lava-jato e as relações promíscuas entre Moro, procuradores e destes com a Cia americana – era tudo tão claro, mas a mídia sempre desconfiava que era “teoria da conspiração” – aliás, doravante é bom compreender esse termo como um “tampão para o vazamento das obviedades”. Midia investigativa, saiam do pau das camas, investiguem essa carta aberta, aí tem muita matreirice!

- O caso dos assassinos de Mariele Franco e Anderson Gomes, cujos investigadores não querem muito olhar sobre a mesa a carta destinada à família Bolsonaro, preferem fingir que há mais segredos no pau das camas. O mesmo se passa com o caso das pernósticas “rachadinhas”. Só pra se ter uma ideia: compare a possível e difícil prisão de Flávio Bolsonaro com as decisões que precipitaram a perda de mandato de Delcídio Amaral e sua sucessiva prisão. O segundo perdeu o mandato e foi preso num período de seis meses, já os esquemas da Morte de Mariele e Anderson e o das rachadinhas já se arrastam pra dois anos e Flávio continua no poder.  Delcidio, sem dúvidas, mereceu, mas e com o outro porque não se aplica a mesma agilidade? O engraçado é que a Polícia Federal procurava o tal Queiroz nos escondidos sofisticados e nem percebiam que ele estava sob o teto do advogado de Bolsonaro, mas deixado lá de forma tão displicente que nem o advogado sabia que aquela fumaceira toda era do churrasco do Queiroz;

- E os 45 pedidos de impeachment, cartas abertas sobre a mesa de Rodrigo Maia que não andam?! Não são postos em votação, pois o presidente da Câmara tem claro rabo preso e disso a imprensa também não se ocupa. Tem aí aquela negociação séria: Rodrigo segura as pontas  aqui e vcs deputados, procuradores e juízes mantenham o sogro dele fora da cadeia (Moreira Franco, que está envolvido com Temer e JBS - ambos ainda terão que explicar a Mala do Rodrigo Rocha Loures e a relação criminosa com a JBS).  Dois Rodrigos, uma mala (ou muitas?), vários malas e uma imprensa que trata muito bem esse presidente da câmara só por ele ser neoliberal e apoiador das reformas para o bem do capital. Até o sogro dele está sossegado e, na mesma barca, o vampiro Temer rindo da justiça agora como aliado de Bolsonaro.

- A culpa pela eleição do Bolsonaro não seria do PT? Afinal, o PT poderia ter apoiado o paladino Ciro Gomes, que poderia ter mais chances, não? Dados bem objetivos, como cartas sobre a mesa, mostram facilmente que isso é uma balela. Que partido político no mundo tiraria o seu candidato da disputa diante de um primeiro turno cujos resultados foram assim: Haddad com 29,28%, Ciro com 12,47? Ou seja, o Paladino solitário teve apenas 1/3 dos votos de Haddad. Não é uma carta clara sobre a mesa? Ou você se fiou apenas nas pesquisas de opinião em que Ciro aparece como possível vencedor de Bolsonaro no segundo turno? Em razão deste número tão improvável, o PT cancelaria a eleição e correria a apoiar Ciro? Não seria essa ideia mais uma tentativa de esconder o PT? Não temos aí uma carta aberta das mídias querendo sempre que o PT caia fora?

- Muitas outras cartas (poderia comentar dezenas delas)

Agora, tomemos o PT sobre a mesa, carta aberta e desvirada do avesso!  Sim! Sem sombras de dúvidas o PT cresceu e apodreceu um tanto. Surgiram alguns políticos corruptos, que o inchaço propiciou: Palocci e Delcídio são os exemplares maiores! Para mim, poderiam morrer na cadeia! São corruptos confessos e malacos, quiseram aproveitar a onda de delações e jogar suas dívidas criminosas sobre Lula e o PT. Todos os criminosos da política, quer sejam do PT ou de esquerda, não devem ser poupados, mas é preciso que sejam bem julgados e não apenas, como tem acontecido, vítimas de arbitrariedades. Há injustiças notórias: a prisão de Genoíno, Gushiken, Delúbio e alguns outros são bons exemplos, que estão até sendo revistos pelo STJ.

No panorama amplo da política, os acusados em geral são desligados do partido, mas quando se trata do PT, a ideia é que a imagem do partido seja atingida. Já se fossem PSDB, PMDB, PTB e outros, os casos seriam individualizados a tal ponto de a gente nem saber a que partido pertence o bandido. Quanto mais bandido é o cara, menos importa o partido! Podem constatar mais essa obviedade agora: a que partido pertence Cunha? A que partido pertence Crivela, Witzel e tantos outros nomes que flutuam sem partido?!

Quantas vezes discuti com amigos que atribuíam culpas ao PT, a Lula, a Zé Dirceu, Genoíno e outros pelas alianças com o centrão, como se fosse possível governar sem levar em conta um número expressivo de deputados interesseiros, que também chegaram a seus cargos através do voto popular! Então, governar é sim lidar com a decisão emotiva do povo – não é por acaso que Freud diz que a política é uma das três atividades impossíveis[2]. Se o povo é alienado, se essas lideranças são exercidas por charlatães que enganam o povo em todas as eleições, esta é uma evidência de fato. Aprender a negociar é uma nova-velha lição para partidos experientes, para políticos experientes e com alguma flexibilidade, pois em negociações nem sempre se ganha.

Alguns amigos falam que o PT deveria fazer um mea-culpa, pedir desculpas para o povo. Acredito que até pode ser, mas essa história de perdoar e ser perdoado para mim é sempre uma grande balela. O cristianismo acha lindo perdoar e pedir perdão, tanto que o poeta Gregório de Matos reduziu toda a lógica do perdão a  um silogismo: se a glória de Deus consiste em perdoar e eu sou pecador, sou eu então quem garante a glória de Deus com meus pecados, sendo assim tenho que “pecar mais empenhado”. Portanto, melhor pensar que a glória do povo não consiste em perdoar e nem que sua força aumente quando perdoa. O que de fato pode fazer o partido retomar boa parte de sua confiabilidade são suas ações concretas atuais e, sobretudo, o aproveitamento de suas experiências em governos de coalizão, sua disponibilidade para aprender com os erros e, sobretudo o potencial político de suas lideranças.

O que pode fazer um cidadão decidir se vai ou não retomar seu apoio ao PT é uma lógica que tem que ir além da busca política feita pela Globo, Veja, Isto é,  procuradores, juízes etc.  Em vez de pôr o foco numa carta muito escondida, melhor desconfiar dessa possível carta virada ao avesso ali brilhando sobre a mesa. Convém, por exemplo, pegar a condenação escrita por Moro (caso do Triplex) e depois a copiada por Gabriela Hardt (caso do sítio de Atibaia) e ler, mesmo sem ser da área jurídica, porque elas são muito simplórias e estão sobre a mesa, não estão no avesso e nem trocaram o remetente. Perceber isso já seria um primeiro passo! Quantos dos que opinam leram essas sentenças? Quantos perceberam a forma como decidiram (isso também ficou claro na “Vaza-jato”) condenar Lula pela reforma do ”Triplex” já que não conseguiam encontrar contas nos paraísos fiscais, um bilhete, uma gravação que fosse, algum telefonema gravado, enfim, uma falcatrua clara, como aquelas de Aécio, de Temer, de Romero Jucá, de Renan Calheiros, Mendonça Filho, Sarney e agora da milicianíssima quadrilha Bolsonaros & Filhos! Mas muita gente ainda prefere acreditar num esconderijo mirabolante do PT e de Lula e justificar as buscas frustradas dos procuradores reveladas claramente nos documentos da vaza-jato. O interessante é que quanto mais procuram, mais tucaninhos e neoliberais saem dos ocos da cama.

Cheguei a ver em comentários de leitores na Folha, tradicionais inimigos do PT e de Lula, que exigiam as grandes provas, as contas bancárias recheadas, malas de dinheiro, gravação de conversas do Lula testemunhando acordo espúrios, mas... nada! Não encontraram, então aceitaram o triplex e o sítio dos pedalinhos. Sabendo que essas armações não seriam aceitas no mundo intelectual e nem pela crítica especializada dos juristas internacionais, apostaram fortemente na voz de Bonner e nas tintas bem pagas da Veja e de outras mídias neoliberais – São estivais essas Letras, esses sons e essas cores com que se faz a idiotia nacional!

Agora precisamos de um partido de esquerda, não?! Ou pode ser de centro? O PSOL é pequeno, ainda professa uma ideologia meio virgem, como aquela do PT da década de oitenta e noventa. Se chegar ao poder vai “Syrizar” com certeza, pois lhe faltará a experiência de lidar com os podres poderes que o povo põe no legislativo. O partido ainda acha que é possível fazer uma revolução quando chegar ao poder? Não se preocupam em lidar com a complexidade da política partidária, é como se essa política fosse provisória e poderia ser extirpada tão logo cheguem a Brasília. Nesse imaginário, facilmente levariam o povo revolucionário às ruas, organizariam as bases de apoio como se não existissem Globos, Folhas, Vejas, TV dos Evangélicos, TV dos Carismáticos etc., além de centrões e direitões com bancada da bala se juntando à da bíblia! Essa cegueira ideológica levaria um pequeno percentual às ruas, até criaria um clima tenso, mas fatalmente sucumbiria a um novo golpe. Infelizmente, é preciso admitir, não se fazem grandes revoluções dentro das democracias atuais. A governabilidade hoje é bem mais complexa.

Os demais partidos de esquerda (PCdoB, PSTU, PCO e outros são pequenos e não vão crescer nunca, pois lhes faltam até discurso para uma expansão mínima.

O que fazer com a experiência e as dores do PT? Jogar fora pra começamos tudo de novo? Nossa concepção política é sempre a esperançosa espera do paladino? Requer sempre uma nova concepção, um novo partido, uma nova revolução? O Brasil, a exemplo das democracias mais consolidadas, não está precisando acumular experiências pra sair desse cego e aventureiro troca-troquismo?!

Que lógica precisamos desenvolver pra não ficarmos só na convicção habitual da polícia francesa, que crê mais nos escondidos mirabolantes do que nas evidências?! Precisamos acrescentar a poética, que é esse jeito de nunca desprezar o óbvio, pra reverter minimamente a lógica da polícia, que escarafuncha sempre no mesmo sentido. Enquanto todos procuravam a carta escondida no espaço real do palácio, Dupin procurou-a no espaço mental do chantagista. Sabia que havia ali duas dimensões!

Imagino que pra nos posicionarmos na política partidária atual, levando em conta seu espectro, da esquerda à direita e, ao mesmo tempo, nossas projeções ideológicas e compromissos de classe, precisamos urgentemente sair da lógica cristã do “partido puro” e, ao mesmo tempo, projetar minimamente a dimensão dos confrontos com o que vem do voto popular (centrões, políticos corruptos,  bancadas X, Y, Z etc.).

Não tem como evitar - a carta está sobre a mesa! – o Partido vai entrar em situações difíceis e pelo discurso do Lula será muito diferente de 2002 ou de 2018. Por mais que as mídias não queiram a imagem do PT está voltando a brilhar e uma certeza nasce da experiência: a própria burguesia precisa da imagem de Lula diante do caos que está instalado hoje. Até o Jornal “O Globo”, inimigo número 1 do PT, acenou como se fosse amiguinho de Lula, mas levou uma espinafrada.

Em 2002, pensou-se que talvez uma carta aberta ao povo brasileiro faria a nova imagem de um partido predisposto a negociações e a se tornar líder até de uma burguesia nacional ou, quem sabe, como comemorou apressadamente Zé Dirceu, “uma Globo do nosso lado!” A carta ao povo foi importante para levar o partido ao poder e ganhar certa confiança nacional e internacional, mas pra além disso ainda restaram a verdade que não quer calar: a burguesia nacional que idolatra Miami, sua mídia, seus procuradores, juízes e políticos são cartas sobre a mesa, mais marcadas do que nunca. Hoje o PT tem mais bagagem pra enfrentá-los do que nos seus três mandatos e meio.

Para mim, o PT é hoje o partido que tem essa experiência, que calejou suas mãos e até as sujou, que tem o espectro dos confrontos e a armação tensiva com as mídias. Claro que tem que lidar com seus podres: como um Palocci passa de homem de confiança de Lula a alguém disposto a ajudar a prendê-lo? Entregar a Petrobrás e outros focos de olhares públicos a partidos aliados ainda se preserva como política partidária? O que fazer com a mídia golpista e com velhos vícios jurídicos brasileiros, por exemplo: onde já se viu a presidência nomear juízes e procuradores, que mais tarde terão a obrigação de investigá-lo? Não ficou clara a carta de Moro trocando seus favores com sua ída para o STF? Não deu certo, mas a letra da carta tá bem legível sobre a mesa, não? E o tal Fux (“in fux we trust!” – como perverteu Moro!), como pode virar presidente do STF quando deveria ser investigado por sua participação na lava-jato globalizada? Não fica claro porque Aécio, Serra, Alckmin, Jucá, Calheiros e outros estão soltos? Não fica claro o modo como a mídia, sobretudo a Globo e as TVs evangélicas, evitam veicular qualquer matéria positiva sobre o PT e Lula e de inclusive negar-lhes o contraditório?! Há muita coisa bem clara a ser mudada na política do PT, mas não vejo nada novo e interessante no front advindo de outros partidos emergentes que o possa substituí-lo.

Para mim, o partido que, mesmo com tantos problemas (pelos quais não deve ser perdoado, mas exigido!), reúne experiências significativas no campo da luta continua sendo o PT. Não dá pra inventar o novo, o adventício, o mais puro e lindo que vem aí! Não virão! Bem ou mal é o PT que está pronto no campo de batalha! É ele que tem a origem histórica e a experiência que reúne o percentual maior de centro-esquerda. Se precisamos melhorar as qualidades do guerreiro no campo de batalha, isto é assunto para participações mais coesas, mais contextualizadas e deveria ativar nossa vontade de participar e brigar por sua herança.

Se você não acha isso, se tem uma lógica melhor pra entender tudo isso, aponte então qual seria a opção viável? Saia daquela posição crítica anódina em relação à esquerda e desça com os dois pés no chão complexo e sórdido da luta! Se vc é atópico, o sujeito que não está posicionado em lugar algum a não ser num imaginário de vago intelectualismo, sua opinião é pouco relevante, mas atrapalha um tanto e, sem querer, bandeia sua imagem de interlocutor mais pra direita do que pra qualquer outro lado.

É preciso reconstruir o PT! Ainda vale a pena! Um bom partido leva várias décadas pra se consolidar no chão da luta.  Lula tem que voltar a disputar a presidência! É o caminho mais efetivo pra reverter a situação!

 

[1] Mal Estar na Civilização.

[2] Freud, S.  Análise Terminável e Interminável (1930). Freud diz que Psicanalisar, Governar e educar são três tarefas impossíveis. Daí nasce todo um senso de realidade para se lidar com diferenças, pra não se trabalhar tendo o ideal como referência. A educação de que me ocupo é impossível, o que significa dizer que a realidade é sempre mais complexa do que qualquer teoria.

“AMBIÊNCIAS” DE ENSINO NO PÓS-COVID-19

Claudemir Belintane

(Professor Sênior da Faculdade de Educação da USP)

Pestes e pandemias sempre deixam seus restos! Em geral, para as ciências sobram muitas experiências interessantes a serem pesquisadas e tematizadas, desde os aspectos médicos, biológicos e químicos sobre vírus, doenças e suas possibilidades de cura e de manejos em pandemias, até as mudanças nos comportamentos e relações sociais diante das situações de confinamentos, quando as pessoas são

obrigadas a assumir uma prontidão outra diante do mundo e das coisas.  Sobram também lições suficientes para combater a onipotência e o positivismo exacerbado, sobretudo daqueles que banem as diferenças e afirmam uma subjetividade universal posta acima das heterogeneidades – refiro-me àquelas facções anglo-saxônicas que pretendem convencer repetindo chavões de clarividências, “está cientificamente comprovado”, “as evidências são irrefutáveis”, que são incautamente repetidas nos documentos dos atuais “donos” do Ministério da Educação, que querem implementar o Método Fônico de alfabetização alegando “evidências internacionais” e privatizar o que for possível do sistema educacional brasileiro.

Uma das perspectivas em relação ao pós-covid19 que vem agitando o mundo da educação é este atual funcionamento do ensino -  “especial”, “anormal”  -  quando não se têm mais as turmas e seus educadores atuando presencialmente no ambiente escolar, quando se muda a ambiência de ensino e aprendizagem – estamos tomando a palavra “ambiência” aqui na acepção da Arquitetura, que a distingue de mero ambiente físico, com seus espaços, mobiliários e equipamentos - ambiência é também o ambiente, mas perpassado e matizado por laços sociais, costumes e tecnologias humanos, ou seja, é um espaço socio-psíquico e histórico. Nesse sentido, , quando a ambiência escolar é amplamente dividida com a familiar, sobretudo no ensino básico,  estamos diante de uma mudança considerável na concepção de ensino, ou seja, está se compartilhando o próprio modo de funcionamento da escolarização oficial, estendendo e esgarçando a ambiência de ensino de tal forma a abrir o campo para as mais diversas possibilidades, sobretudo quando este é alvo de investidores pragmáticos, que visam transformá-lo em um mercado rentável a qualquer custo.

A presença da família em casa, cumprindo quarentena (que talvez seja de meses e não de dias), pais e filhos juntos experimentando uma situação inusitada, que é a de trabalhar e estudar em casa, usando, entre outros, seus computadores, tablets e celulares e com todas as possibilidades dos pais exercerem sobre a formação dos filhos uma situação panóptica especial, que inclui análises e julgamentos sobre as aulas de seus professores.  “Panóptica” porque exercem vigilância tanto direta (olhando cada detalhe das aulas e lições a serem feitas) como indiretamente, quando levam os filhos a imaginarem que a lição, a redação, o exercício, as aulas dos professores poderão a qualquer momento ser vistas e revistas pelos pais, ou seja, lançam a poderosa sombra do vigiadores sobre os vigiados, levando-os ao próprio ato de vigiar-se a si mesmo com o peso inoportuno do outro.

Neste novo contexto, muitas famílias,  que nem sempre demostraram interesse em acompanhar a escolarização dos filhos, agora estão ali, ao lado deles, vendo aulas gravadas ou lives de professores até então desconhecidos, exercendo uma função que antes não estava ao alcance dessa tutela familiar: monitorar e julgar os conteúdos escolares e a performance desses professores e criar com isso essa situação de panoptismo. Poucos deles sabem que o conhecimento requer liberdade, intimidade, laços com outros diferentes do outro familiar – que só é possível crescer autonomamente enfrentando diferenças e ressignificando e expandindo os conhecimentos que vêm dos laços familiares.

Acredito que o sonho de monitorar e controlar tudo o que se ensina aos filhos seja um desejo antigo de famílias e comunidades, sobretudo das mais religiosas. Daí os sistemas de ensino já terem sido cerceados e regulados discursivamente por igrejas, governos, entidades regionais ou nacionais de tal forma que sua própria estruturação já traz todas as marcas desse controle – por exemplo,  a luta para que a educação se mantenha laica é só mais uma tendência discursiva dessa contenda no tempo. Ao lado de todo esse arsenal ainda há um outro, talvez pouco estudado pela educação: os ciúmes que muitos pais sempre manifestaram em relação aos professores terem alcançado o direito de educar crianças e adolescentes assumindo um programa alheio aos desejos, preceitos e religiões familiares.  Pais onipotentes gostariam de educar seus filhos com exclusividade para preservá-los de supostas más influências que a escola poderia trazer para a família. Por ser pai ou mãe, reivindica-se para si o direito exclusivo e psicótico de dominar todos os detalhes da formação do filho, de tal modo a fincar seus mourões sem deixar muito espaço para eventualidades. Foucault bem diz que o discurso é a forma de exorcizar acontecimentos aleatórios, ou seja, de não permitir surpresas que desestabilizem o que foi estruturado antes. Como professor e coordenador de ensino básico constatei essa reivindicação paterna, essa ciumeira, durante quase duas décadas.

Talvez não seja por acaso que a ideia de homeschooling tenha sua origem em religiões não católicas, que desejavam ensinar os filhos de seus adeptos procurando garantir que as surpresas de um conhecimento vindo de um outro muito extenso e diferente não afetasse o mercado futuro da entidade. Ao filho de peixe, a religião prefere garantir que se é sim peixinho... de aquário!

Também não vejo com estranhamento o fato de essa ideia, com um bom pé na eugenia, ter acelerado sua força com a eleição de Bolsonaro, que é um (des)governo que se diz nacionalista-religioso, mas que desestrutura o estado para privilegiar o mercado e as religiões evangélicas neopentecostais, ambos sequiosos por um domínio mais amplo da fatia de lucro e de um exercício de poder mais direto sobre a educação.  Bolsonaro tem como referência ideal de governo uma república fundamentalista, sem congresso, com o judiciário submetido ao executivo e estes compartilhados com os subservientes pastores evangélicos. No atual contexto, ele seria ditador iluminado por Deus, ainda que todo o poder esteja com os militares (essa tem sido uma das exigências pra se ter o apoio deles). Aos bispos e militares, hábeis dominadores da relação da submissão religiosa e patriótica, caberiam os ministérios mais estratégicos para a mudança dos costumes laicos.  À oposição seria atribuída uma pecha com justificativa religiosa e submetida a perseguições, sem tréguas.

A tal Homeschooling, nesta versão, ajuda nisso tudo, pois nega a educação laica, protegida pela Constituição, e reivindica que famílias e religiões possam ter acesso direto às definições curriculares e programáticas do ensino. Questiona ou mesmo exclui alguns objetivos escolares laicos que expõem profundamente à análise dogmas religiosos, entre tantos, a ideia de estado e educação laicos, além das temáticas científicas que põem em xeque os  pilares fundamentais da religião (origem da vida e do universo, a complexidade da sexualidade humana, a questão dos gêneros, as liberdades individuais e direitos de minorias, a (im)possibilidade da ressurreição, enfim, renegam o primado das ciências e das artes). Educados em casa, por pais ou por alguém da religião, seus filhos não seriam submetidos a essas tensões discursivas, escapariam das contradições fundamentais da vida, que é a convivência na diferença. A tal Homeschooling, que não deixa de ser adepta da “escola sem partido”, faz o mesmo jogo, não aceita que professores tenham opiniões, que possam exercer a dinâmica do ensino de forma a exercitar o debate com os conteúdos que os alunos trazem de suas casas.

Se o professor enfatiza aqui ou ali um conflito social ou se empenha em provar que temos uma origem comum com os macacos, os pais estarão ali para contrapor o professor. Por outro lado, os novos donos de escola (que não são muito diferentes dos bispos neopentecostais que pedem dinheiro na TV!) estão vendo o novo fenômeno com muito bons olhos e já apressadamente começam a imaginar e a providenciar um pós-covid19 apostando nessa ampliação da ambiência escolar para a familiar por meio da Internet. Desconfiam que aí moram todas as chances de lucro máximo para “novos” empreendimentos comerciais sobre a escolarização.

Neste contexto atual, defensores da homeschooling estão em euforia porque imaginam que podem aproveitar essas estranhas experiências como argumentos que reforçam a ideia de que crianças podem ser educadas em casa, que a escola poderia se resumir à tarefa de manter um banco de aulas, de cujos conteúdos e temas pais e religiosos poderiam tirar o que julgarem essencial para a educação de seus filhos e adeptos.  Do mesmo modo, os investidores preconizam uma “revolução” na educação pós-covid19, pois agora, segundo eles, estaria provado que as escolas podem até ficar meses fechadas, que o ensino à distância tem condições de suprir boa parte das aulas presenciais.  Reduzir custos com professores, comprar, vender ou alugar “bancos” ou pacotes de aulas e de conteúdos escolares nacionais e internacionais a baixo custo; adotar metodologias objetivas como era o sonho dos behavioristas, com suas lições em “pequenas doses” e com feedback imediato (as máquinas com vozes de professores podem dosar os conteúdos e dar feedbacks imediatos com vozes meio robóticas, mas divertidas), tornou-se mais fácil. Imagine que a própria família pode alfabetizar, ensinar as bases da matemática, graças a esses programinhas quase gratuitos fornecidos pela escola ou pelos parceiros do mercado, um estudo mais que dirigido, panoptizado.

- Ah, mas e a interação dessas crianças com outras? A vida social delas com amigos e colegas da mesma idade ou a relação com adultos que não os da família?

- Ora, isso elas obtêm no clube, na igreja, com nossos parentes e é quase de graça!

Bem, mas não me estranha se a flexibilização “neolibê” aparecer com a escola das liberdades individuais (“ultralibê”), com horários feitos pela família, com algumas aulas presenciais opcionais para atividades práticas, talvez laboratórios, educação física, tira-dúvidas, eventos comemorativos, provas objetivas etc.  Uma escola uberizada, pronta para atender qualquer tipo de família com pagamentos orçados de acordo com o uso – um aplicativo dirá quanto a família usou a escola e a despesa será lançada no cartão ao final “da corrida”.  Do mesmo modo,  arma-se a tentação de dispor de educadores que serão pagos de acordo com a satisfação dos clientes que cativarem com suas performances virtuais – pode até ser que tenhamos aí, pra escola dar de brinde, a figura do performer famoso, que se aluga para várias escolas de acordo com o preço. A família poderá escolher o nível de contato, a religião, a ideologia do professor, quantas e quais aulas presenciais no pacote com descontos e exigir seus brindes quando acumulam pontos.

Não tenho dúvidas de que a “sociedade da inteligência”, que viria com as novas tecnologias segundo os mais entusiasmados, também esteja avançando nos dias de hoje, mas ainda não se compara à extensão abrupta da irracionalidade, que salta a passos largos, contrapondo-se aos avanços sociais que o mundo conseguiu às duras penas nos últimos séculos.  A educação que aí se preconiza para o pós-covid 19 deve reforçar ainda mais o avanço da mediocridade, de uma formação que já nasce estabelecida pela família, sem possibilidades de questionamentos e de subversões. Por exemplo, disparar fake News de baixo nível para desinformar e favorecer esta ou aquela linha política é um dos avanços dessa “inteligência” perversa; um outro exemplo:  criar empresas digitais de fachada cujo único objetivo é formar bancos de dados e classificá-los ideologicamente para criar bolhas difíceis de serem dissolvidas, garantindo assim um público isolado, um aquário fácil de manipular e isento de críticas de outros, pois, por mais que alguém faça pra furar as bolhas, jamais conseguirá o mesmo sucesso sem lançar mão de ações criminosas na manipulação de dados sobre as vidas e hábitos de milhões de pessoas – ou seja, a esperteza parece dispensar a ética, coisa que poderíamos nomear como esperteza  “Zuckerberg-Bannon”.

A forma como se elegeram Trump e Bolsonaro é exemplo claro dessa nova patifaria.  O processo foi tão vantajoso a Bolsonaro que ele e seus filhos continuam usando o esquema das fakes news para não perderem apoio e, ao mesmo tempo, desautorizarem seus adversários achincalhando-os com mentiras baratas, mas suficientemente emotivas para que pessoas não acostumadas minimamente à complexidade da política acreditem e se perfilem ao lado do capitão do mal. Cultivar em aquários altos percentuais de peixinhos adestrados e fiéis permitem a Trumps e Bolsonaros romper com toda a tradição de cordialidade e de racionalidade no exercício de seus mandatos. A escola aquário parece se dar bem com a politicagem de aquário e a prática de fakes News pode ser considerada o ponto comum entre política e educação ultralibês.

Mais do que nunca precisamos de debates, discussões, aprofundamentos, quebra de aquários e bolhas ideológicas, que só uma educação com lastros solidamente presenciais seria capaz de pôr em discussão de forma plural e livre. Mais do que nunca precisamos de professores bem formados, politizados, capazes de polemizar o conservadorismo, as proliferações de fakes e outras doutrinações que vêm via redes sociais. Mais do que nunca precisamos trazer a complexidade analítica para dentro das escolas como forma de combater essa mediocridade política que parece ter virado moda.  Noto muitas pessoas ativas na rede, que compartilham informações de baixo nível, atacam ou se defendem com agilidade, mas de forma puramente emotiva com xingamentos bobos, sem sequer se preocuparem em saber de onde vieram as informações, mas que quando se lhes exigem um pouco mais de explicações, caem fora, resumem tudo com um “é isso aí”,  “talkei” e dão por finalizada a discussão.

A grande perversão de tudo isso é que as religiões estão sempre implicadas em tudo. Tudo se faz em nome de Deus, de Jesus, de Nossa Senhora etc.  Uma pessoa religiosa que resolva postar imagens de Nossa Senhora ou orações por algum tempo no facebook ou no whatsapp em breve receberá dezenas de fake News e convites para exercer o ódio contra supostos ateus e comunistas e se protegerem ou se sentirem protegidas no aquário da família religiosa.

A escola presencial, livre das influências religiosas (de todas elas) e dos desejos e ansiedades mais imediatas dos pais, é e deverá continuar sendo a ambiência saudável do crescimento intelectual, das possibilidades, por exemplo, de um jovem mudar seu destino familiar, de se reposicionar subjetivamente em relação às trilhas repetitivas da cultura dos pais. Boa parte dos exemplos de cientistas, escritores, artistas bem sucedidos no mundo tem a ver com rupturas ou ampliações abruptas da ambiência familiar.  Qual seria a ambiência mais propícia para que uma criança ou adolescente reúna condições de se descolar e se diferenciar minimamente dos pais? A do clube? A da igreja? A da família?  Não seria a escolar, onde o aluno de fato se encontra com a diversidade e as adversidades e é obrigado a se reposicionar constantemente diante de um outro mais difuso e complexo do que o familiar?! Não é na diferença que a saúde psíquica se reforça em seu jogo de alteridade?

Muita gente vem dizendo, com razão, que as linhas de força do discurso que subsistirão à covid19 já vêm sendo tecidas nas últimas décadas e os nós mal enjambrados pra fechar propostas decentes ou indecentes estão sendo dados agora, neste momento singular em que a anormalidade vai se tornando regra. Portanto, discutir esse tema é vital para que professores, sindicatos, grupos, áreas de ensino, movimentos estudantis e outras organizações tenham o que propor e o que dizer a respeito, antes que empresários, religiões e grupos neofascistas abarquem e açambarquem tudo.

Maio de 2020

NÓS, LULA E OS TOGADOS

Claudemir Belintane

(Professor Sênior da Faculdade de Educação da USP)

 

Não há campo da vida social que mais nos assusta do que o da justiça. Sejam seus braços na rua, por meio de policiais despreparados; seja sua atmosfera austera e crua nas delegacias de polícia – sempre nelson-rodrigueanas! - ou, mais ainda, num tribunal, diante de juízes de toga e juridiquês em riste. O cidadão sempre teme, acha que aqueles seres são dotados de uma inata superioridade, que vai além do que lhes atribuem o cargo e o poder que exercem. Está na hora de desvelar esse  imaginário,  e descobrir melhor as pessoas fracas, despreparadas e “bem-intencionadas” que se escondem por detrás das capas.

Seria muito bom e saudável para a sociedade que, num futuro próximo, essas diferenças deixassem de existir; que nós pudéssemos olhar para um(a) juiz(a) não mais como detentore(a)s de um saber misterioso, ocultado pelo juridiquês e pelas expressões em latim. Data venia, pudéssemos olhar para essas pessoas, tão cheias de erros quanto nós, como politicamente engajadas, pertencentes a determinada classe social e sempre prontas a arbitrar em prol dos que com eles constituem a elite dominante.

O julgamento de Lula tem contribuído muito para desmontar essa maquinaria azeitada só de uma banda.  Temos vistos juízes e juízas fraco(a)s, que só conseguem manter suas sentenças e sustentar seus votos em decisões - como a do dia 23/04/2019, julgamento de Lula pela 5ª. Turma do STF -  não pela altivez de suas interpretações e apresentações claras de suas sentenças, mas pelo lugar que ocupam, pela autoridade ou autoritarismo que podem pôr em jogo.

Quanto ao julgamento de Lula, tão importante para o Brasil e o mundo, o autoritarismo já começou no agendamento. É agendado em cima da hora, como se fosse uma mera inclusão na pauta. Até mesmo a defesa, que deveria ter sido avisada no prazo de 72 horas, não o foi. As grandes mídias anunciaram na noite da véspera, algumas só na manhã do julgamento, mas não chiaram, pois se for contra Lula ou PT, que venha a injustiça!

Bons juízes podem agendar assim, repentinamente e à revelia da defesa? Comecemos por aí!  Suponho que na opinião de críticos, nacionais e internacionais mais isentos, isso já desvelaria a inclinação do plano. Criaram uma modalidade nova especialmente para Lula: Julgamento inopinado, súbito, inesperado!

O JULGAMENTO, TELEVISIONADO AO VIVO (AINDA BEM!), SÓ MOSTROU JUIZES DESPREPARADOS E/OU ASSUSTADOS COM O QUE ESTAVAM FAZENDO

 

Não é preciso ter estudado Direito, nem ter grandes experiências no mundo jurídico para perceber certas manquejadas neste julgamento, pois boa parte delas ocorrem sobre fatos e linguagens comuns, que não exigem grandes esforços de lógica jurídica ou de análise linguística sofisticada.  Vou enfileirar aqui mentalmente os quatro julgamentos: o solitário, conduzido por Moro, o do TRF4 (segunda instância), o monocrático de Felix Fischer (que não deveria ter existido) e este mais recente, quinta turma do STF (última instância). Sei que ocorreram outros atos jurídicos do STF negando habeas corpus, proibindo a participação de Lula nas eleições, reafirmando a validade da prisão já na segunda instância, mas vou me pautar apenas nesses quatro para entender o fluxo que alimentou este último (da 5ª. Turma), cuja importância é cabal para o destino de Lula, pois, finalmente, já podem fazer constar que Lula já foi julgado na terceira instância, portanto agora os juízes poderão voltar a “cumprir a constituição” e não aceitarem mais que uma pessoa seja presa antes do trânsito em julgado, antes de esgotarem suas chances de liberdade). Julgamento esperto e “muuuito bem-intencionado”! Talvez seja por isso que foi agendado quase à socapa.

Bem, se a defesa tem direito e exige novo julgamento é porque de fato não aceita a condenação, questiona as provas, a sentença e a própria competência do juiz e da instância para julgar o caso. Neste caso, nós, mortais destogados, imaginamos que os novos juízes vão analisar tudo novamente, avaliar as provas, certificar-se de que não houve vícios no encaminhamento do processo, enfim,  fazer uma reavaliação geral sem se pautar nos julgamentos anteriores, que estão sendo questionados, pois afinal trata-se da terceira e última instância. Contudo, o que a gente assiste é sempre a prevalência dos julgamentos anteriores, ou seja, os novos juízes assumem e citam reiteradamente o que os outros já fizeram, ou seja, se houve erros, impossível saber, pois o que eles fazem é uma validação formal do que os outros fizeram. Rigorosamente, só tivemos um julgamento, aquele balbuciado por Sérgio Moro. O do TRF-4, segunda instância, o validou e, cumprindo um script de crassos erros jurídicos, aumentou a pena dada por Moro – aliás, com um consenso suspeitíssimo!

Todos as demais apreciações do STF apenas retomam ou analisam as formalidades do processo. Neste julgamento, todas as alegações da defesa foram descartados com base nas manifestações do próprio Moro, no julgamento da TRF4 ou na decisão monocrática de Felix Fischer (que foi juiz duas vezes e condenou duas vezes). É incrível como todos entram em um consenso tão estival, tão claro, como se o caso nada tivesse de complexo, apesar de estarem sabendo que há muitas suspeitas sobre a forma como Moro conduziu o processo, tanto de juízes (alguns do próprio STF) e de juristas nacionais e internacionais.  

 

Outro aspecto que chama a atenção é a forma como erram e corrigem os erros.  Felix Fischer já tinha aceitado a condenação de 12 anos do TR4 e a multa no valor do montante da corrupção da OAS, lá no seu julgamento monocrático, mas neste mudou tudo. O que o fez mudar? Por que errou tanto? Não seria só mais um dos combinados? Vamos baixar a pena, corrigir o erro, porque vem aí a sentença da juíza Gabriela Hardt sobre o famigerado Sítio de Atibaia e, com ela, pode-se elevar a sentença para vinte anos, certo?! Faz bem Lula que não entra nessa grotesca armadilha.

Claro que a defesa vai recorrer deste julgamento da Juíza Gabriela, mas nós já sabemos o resultado: vão validar o processo, sem nada desconfiar do já famoso “copi-cole” vergonhosamente operada pela juíza espertinha.

Fica muito claro pra gente que, independentemente do processo, pra eles, Lula tem que ser mantido preso. Por quê? Porque o ex-presidente-metalúrgico não é da laia deles! Lula atrapalha o trânsito deles, naturalmente põe em questão, com sua simples presença nas mídias ou na presidência, a casta a que eles pertencem.  O aparentemente sério Luiz Fachin dá prova disso num texto exemplar em que ao decidir sobre a validade do julgamento monocrático de Felix Fischer, escreve essa pérola: "A decisão atacada foi proferida monocraticamente pelo Relator no STJ; a colegialidade é sempre desejável, recomendável ou mesmo necessária; de qualquer modo, o proceder está regimentalmente autorizado e o recurso respectivo será colegiadamente apreciado." (grifos meus)

Bem, se a colegialidade é SEMPRE desejável e até necessária, ponto! Não deveria prevalecer a decisão monocrática de Felix Fischer, pois ela deu toda a base para o julgamento atual (5ª. Turma, da qual Fischer fez parte). Eu trocaria a expressão “de qualquer modo”  por “no caso de Lula” ou por “vale para todos, menos para Lula!”

 

Ninguém se engane, procuradores, desembargadores, juízes e outros das cortes supremas, servem os de sempre, estão estruturados para manter a paz na dominação de classe, só isso! Interessa muito pouco prender bandidos internacionais que estão bem ativos (corrupção ativa) em muitos governos da américa latina. Pinheiros, Odebrechts, doleiros e outros corruptos da elite fazem suas premiadíssimas delações e retornam pra suas casas e suas empresas, tradicionalmente corruptas, permanecerão provocando avalanches em vários governos da América Latina, inclusive suicídio de ex-presidente da República (Alan Garcia, no Peru)! Como todos sabemos, essas empresas criaram e administram a corrupção no Brasil inteiro (Estados, Prefeituras, estatais etc.) e no exterior. São bandidos internacionais!  

Suponhamos que eu esteja errado até aqui, que exagero por ser partidário! Isso pode acontecer, somos mortais! Vamos então a outros elementos da cena.

 

JUÍZES MAL FORMADOS? NÃO SABEM LER EM VOZ ALTA? TITUBEIAM? NÃO SABEM FAZER CONTA? SÃO RUINS DE PROPAROXÍTONAS? (CÔNJUGE OU CONGE?) E ATÉ DE “COPI-COLE”

 

Esqueçamos, por enquanto,  o Lula e vamos falar dos aspectos discursivos da cena deste julgamento e de outras rabulices desses ministros supremos. Do começo ao fim nesse julgamento, o que vimos foi uma algaravia. Leituras gaguejadas, balbuciadas a tal ponto de não conseguirmos seguir o raciocínio. Eles não teriam lido antes? Não se preparam pra isso? Não ganham aqueles belos salários, mais todas as vantagens que assombram essa mesma profissão no mundo?! Ganham e não se preparam para o trabalho? Por que leem tão mal? Por que se atrapalham nas contas na hora de calcular a pena, mas chegam ao mesmo resultado? Rabulices ou peso na consciência!?

Reinaldo Soares da Fonseca, o presidente, foi um dos piores, repetitivo e gaguejante, mesmo seguindo a leitura. Titubeava entre a leitura e a fala. Fez umas contas esquisitas, várias vezes e, no final, arredondou o número combinado.  Praticamente assentou todas as decisões sobre os julgamentos anteriores, mostrando com clareza que a condenação já estava prescrita, era só justificá-la. Não sei se mais gente percebeu, mas esse ministro, presidente da mesa, brindou-nos com um lapso linguae freudiano, ao tentar dizer o “o Juiz e o Réu”, acabou acentuando a conjunção aditiva e a transformou em verbo copulativo: O juiz é réu (e o Juiz era Sérgio Moro – acho que foi o único momento que ele disse algo de profundamente verdadeiro) -  Moro e Dallagnol deveriam ser réus sim, por terem montado uma quadrilha e tentado embolsar 1,5 bi para uma fundação de direito privado deles, que iria abrigar todos eles no futuro. O que seria as tais corrupções atribuídas a Lula perto dessa monta reservada a procuradores e juízes da Lava-jato? Por que ganharam isso de presente dos EUA? Bondade dos ianques? A história não precisa ser investigada? Ah, sim, eles não entraram na posse do dinheiro, é isso?!  E Lula? Entrou na posse do famigerado triplex ou do sítio? Simples, não!?

Ribeiro Dantas não falou nada. Balbuciou, anunciou que iria ser breve, entrou numa algaravia e fez penosamente umas contas esquisitas. Que tristeza vê-lo e ouvi-lo. Que despreparo! Como cidadãos, pagadores de impostos, devemos exigir juízes mais preparados, que saibam ler em voz alta e fazer continhas simples (pode ensaiar antes diante da esposa pra ver se está bom!).

Bem, se retomarmos o primeiro balbucio-julgamento e as falas públicas de Moro desde o julgamento de Lula, reforçamos ainda mais nossas convicções com algumas provas concretas: do “conje” (aqui não foi escorregadela, o ministro persistiu na corruptela idioletal e ainda tascou uma conjugação escalafobética do verbo “vir”) e, ainda temos a entrevista de “olhos fechados”, que Moro, ao tentar franzir a testa para reter à força o tema dos milicianos que rondam o governo e as diabruras dos filhos de Bolsonaro, nem percebeu que estava falando no escuro; a última, do agora ministro bolsonarista, foi em Portugal: condenou o ex-primeiro ministro José Sócrates atribuindo-lhe a pecha de criminoso e tomou uma espinafrada do advogado e jornalista, Manoel Carvalho: chamar ‘criminoso’ a um cidadão que não foi julgado nem condenado é um abuso que revela a verdadeira natureza de Sérgio Moro. Um juiz-político (ou um político-juiz) que nem num país que o recebe mostra perceber o que é o respeito diplomático. E, já agora, o que é um Estado de direito pleno.

 

ERROS CRASSOS OU ERROS MATERIAIS DA JUIZA GABRIELA? O “COPI-COLE”

 

Outro pulinho interessante é a condução do depoimento de Lula manejado pela Juíza Gabriela Hardt, sobre o processo das reformas do sítio de Atibaia! A tomada de depoimento está na Internet, vale a pena assistir! Dá pra perceber como a juíza é deselegante, não tem calma e sabedoria para conduzir a oitiva, não tem escuta, atropela o depoente de forma esquisita, como se tivesse pressa em chegar logo à conclusão que tanto almeja. São claras também as armadilhinhas verbais, forçando a barra para que Lula entregasse algum elemento precioso pra estofar minimamente a murchidão das provas.  Fica muito claro que a juíza, com sua fala apressada, não aceita que a indignação de Lula e suas explicações ressoem minimamente diante das perguntas que lhe vão sendo feita aos borbotões. Em razão das diversas interrupções que a juíza provocava na fala e no raciocínio de Lula, a defesa pediu para que ela deixasse o depoente falar, mas ela retruca que o ex-presidente tem que se ater somente às perguntas, ou seja, tenta limitar o foco da defesa.

E, como se não bastasse, na hora de exarar a sentença específica do caso, fez um “copi-cole” da sentença escrita por Moro, cujo objeto era o Triplex do Guarujá, e ainda deixa marcas claras que tornam impossíveis negar o ato: em vez de condenar Lula pelas reformas do sitio de Atibaia, condenou-o pelo “apartamento”, mantendo erroneamente o termo usado por Moro;  também errou ao qualificar o suposto crime como “corrupção ativa”, em vez de “passiva”.  Depois do alarde na mídia e da indignação da defesa, admitiu que de fato usou a sentença de Moro como modelo e que só o fez em razão de excesso de trabalho. Corrigiu o texto, mas manteve a sentença, como se uma coisa não tivesse a ver com outra. Ora, a sentença escrita, publicada, que oficializa a condenação a partir de dois erros crassos (inadmissíveis para a posição de uma Juíza, que está julgando um caso político de altíssima relevância). Dois vocábulos que supostamente sustentariam a condenação podem ser trocados por seus contrários, sem o menor problema? Apartamento por sítio, passivo por ativo...tanto faz, não altera a sentença? Detalhe interessante: ela os chamou de “erros materiais”. Outro erro crasso! O episódio, em qualquer justiça séria do mundo seria suficiente para não só anular o julgamento como também para revelar a inépcia dessa juíza de baixa resiliência (cansa-se e se desespera diante da grandeza do caso).

Então, amigos, o tal judiciário nos assusta mesmo em razão de seu poder, mas as pessoas que lá estão são bem mortais e, pelo que vimos, podemos até dizer, são intelectuais de baixo estofo. Creio que andam nervosos, sem a necessária resiliência exigida para o caso. Uma culpa os tange, isso é notório! Nos trilhamentos da linguagem no inconsciente há enervações cedendo com facilidade, levando-os ao balbucio, ao desassossego até para ler e copiar.  Um apoia no outro, fazem tudo igualzinho, pois aquele que destoar terá que suportar a cobrança das grandes mídias.

Bem, pode ser que não tenho razão, que eles até estejam bem convictos de seus atos – se for este o caso, tirando a emoção do jogo, só nos resta concluir que eles, infelizmente, são mal preparados para a função. Se assim for, seria interessante saber como chegaram a esse píncaro da elite brasileira.

Por isso, e bem por isso, concluo com algo que nem tinha pensado antes: ESPERAMOS ANSIOSAMENTE QUE AS COTAS PARA INGRESSO NAS UNIVERSIDADES COMECEM A MOSTRAR SEUS FRUTOS NAS PRÓXIMAS DÉCADAS, porque não é só com conge que se pode fazer o monge!

 
 

MÉTODO FÔNICO PARA ALFABETIZAR AJUSTA-SE AO MUNDO RESTRITO DO BOLSONARISMO, MAS HÁ OUTRAS POSSIBILIDADES

Claudemir Belintane

(Professor Sênior da Faculdade de Educação da USP)

Quando alguém repete incansavelmente que sua metodologia de pesquisa ou de trabalho resulta das revelações mais avançadas das ciências, coloquem um pé atrás e reflitam: por que a necessidade de dizer e repetir isso? Publicidade?! Forçada de barra para ocupar cargos políticos? Ou seria mesmo uma honesta isenção intelectual?

Do mesmo modo que os terraplanistas denunciam uma ciência predominante, que ocultou a grande e simples verdade, “a terra é plana”, os defensores do método fônico se valem da mesma retórica. Colocam-se como representantes das ciências médicas ditas mais avançadas, daquelas que usam tecnologias de ponta (ressonância magnética de posítron – como gostam de citar!) e desse lugar tão paramentado polarizam fortemente com seus inimigos de sempre (construtivistas, sociointeracionistas, os que usam o conceito de letramento), num manejo discursivo sempre capitaneado pela repetição exaustiva de frases como “está cientificamente comprovado que...”, “estamos associados à verdadeira ciência”, “somos profissionais, os demais são amadores”, “seguimos o que se faz nos países de primeiro mundo” etc.

A estratégia discursiva, apesar da aparente sofisticação, acasala-se perfeitamente com a do Bolsonarismo, que tenta destruir antigas conquistas, alegando serem elas resultantes da velha política à qual se contrapõe, como se fosse possível colocar-se acima das ideologias e da História simplesmente se submetendo à política dominante  - reparem no discurso de Paulo Guedes: chega a dizer que é ideológico se posicionar contra a Reforma da Previdência, alçando assim seu plano acima de qualquer suspeita, sob a égide da ciência econômica gestada pelos ultraliberais da escola de Chicago, que também são ideologicamente rotulados de “fundamentalistas do livre mercado” – são tão ideológicos que são conhecidos como “fundamentalistas”. O mesmo se passa com Ricardo Velez, ministro da Educação, que em vez de apresentar um plano de governo para o seu mandato, preocupa-se mais em desestruturar o ministério, afirmando que tudo ali é ideológico, socialista, comunista, ateu etc. e, para exorcizar tudo, chama religiosos neopentecostais para ocupar os cargos executivos mais importantes, mesmo sabendo que eles não possuem formação e nem competência para tamanhos desafios.

Não há nada mais ideológico do que se pôr acima das ideologias. Não há nada mais anticientífico do que se auto indicar cientista da verdade completa ou da revelação divina - como Carlos Nadalim, secretário de Alfabetização do MEC, que só entrou pra educação, segundo ele, em razão de um milagre operado por Santa Terezinha do Menino Jesus. Deve ter sido tão auspicioso o milagre, que ele chegou ao ministério sem ter experiência alguma em alfabetização de crianças nem em escolas particulares de médio porte e muito menos em redes públicas de ensino. A pouca experiência que trouxe foi da escolinha infantil de sua mãe, no entanto, já está pronto para repetir que a Metodologia Fônica é banhada por ciências de ponta e que os demais pesquisadores do Brasil, mesmo os que possuem grandes e longas experiências, são ideológicos e não científicos. De quebra, trouxe para a secretaria de formação de professores uma amiga, igualmente sem experiência. Triste constatar que alguém tão inexperiente ganhe espaços nas mídias para desacreditar pesquisas e trabalhos de muitas décadas. 

Como especialista, com muitos anos de pesquisa e muita publicação na área, vou expor neste texto um pouco desse jogo do “Método fônico” desideologizado e apontar, com toda a minha ideologia, alguns caminhos possíveis para alfabetizar no chão do Brasil.

 

COM QUE MÉTODO ALFABETIZAR?

 

Bem, vamos imaginar que você tenha que alfabetizar um grupo de crianças, uma turma de 25 alunos com seis anos de idade. Você faz uma avaliação inicial (muito recomendável!) e percebe que algumas crianças já sabem ler até com certa fluência, que outras conseguem ler palavras com silabas simples (consoante + vogal, como “batata”), outras conhecem as letras pelos seus nomes (efe, ge, a, bê etc.), mas não sabem como elas formam sílabas e nem desconfiam como se  injetam nelas os sons e os sentidos da língua humana e, ainda mais um grupinho dos que sequer conhecem as letras de seu próprio nome. No mínimo, em todas as salas, você encontrará quatro grupos levando em conta só essas diferenças básicas em relação à escrita. Se levarmos em conta outros critérios mais pormenorizados - por exemplo, a capacidade de ouvir e recontar histórias, de memorizar palavras, de segmentar a sílaba inicial (Acrofonia), de identificar palavras-valise (quanto uma palavra comporta outra em seu corpo significante, por exemplo, carambola) etc., esses grupos podem se desdobrar em seis, oito, dez.  Como alfabetizar nesse contexto de tantas diferenças? O que posso fazer sozinho com turma tão heterogênea?

Homogeneizar tudo? Meter atividades pra todos entenderem juntos cada associação de cada fonema a cada letra do alfabeto? Levá-los a entender que a consoante é apenas um movimento físico que só soa se consoar com uma vogal? Fazer isso exaustivamente com a suspeita de que este ou aquele aluno, mesmo já sendo leitor, não se dá muito bem com as soletrações (como nos EUA, a Spelling practice)?

No lado aposto, também não seria opção tentar compreender o que eles já sabem e estrategicamente pôr todos num ambiente mais rico em situações favoráveis à descoberta da alfabetização e incentivar que todos se interessem pela leitura e pela escrita e que descubram suas funções sociais e o funcionamento algorítmico das sílabas em geral? Dentro do mesmo processo, não seria possível também simplesmente pôr os alfabetizados com os não alfabetizados e estimular ali uma zona de desenvolvimento proximal (ZPD de Vygotsky) para ampliar as possibilidades do letramento?

Creio que, se você, professora[1], mesmo com ideologia, abrir olhos e ouvidos às singularidades que emergem no ato quente do ensino e da aprendizagem, acabará descobrindo que tanto um como o outro jeito de alfabetizar não dão conta da complexidade do processo. Perceberá que uma parte dos alunos parecem inacessíveis tanto a um como a outro e que as duas estratégias têm seus ruídos no funcionamento. A técnica que homogeneiza (Método Fônico), a despeito de levar certa vantagem no ensino em termos programático (é só aplicar o material didático), pode irritar os alunos que já sabem e fazê-los estagnar, além de, ao forçar a barra nas atividades de correlação fonema-grafema, formar alunos que até leem fluentemente, mas que não captam o sentido ou ainda, o que é mais comum, desmotivar ainda mais os desmotivados. Já o que considera a heterogeneidade, que respeita o que o aluno já sabe e tenta incentivá-lo a descobrir mais, pode, no meio dessa complexidade toda, ceder ao espontaneísmo, esperando que uma hora ou outra o aluno tenha um clique e descubra o funcionamento das sílabas simples e complexas, ou então, não perceber que a ZPD Vygotskyana tem seus claros limites. Tanto de uma perspectiva como de outra, se você não for fanática, restritivista[2], dessas que cultuam o “por princípio isso não pode”, vai perceber que terá que lidar com os dois processos, com os elementos menores, fonema, letra, formação das sílabas (simples e complexas) e ao mesmo tempo com os processos mais amplos e complexos, com os recursos advindos das relações que o mundo da oralidade e da leitura põem em jogo, que podem ser chamados de Letramento, literacia, contexto do aluno, universo da oralidade e da escrita etc. Mas, se você tiver consciência política e perceber o quanto se desdobra enlouquecidamente para dar conta de tanta heterogeneidade, vai se tocar que a política e certas linhas educacionais apregoadoras de método estão te fazendo de boba há muito tempo, pois não é possível (e isso nossa pesquisa garante!) alfabetizar todo mundo sozinha, ali no frenesi de uma luta inglória! Métodos e ou concepções se renovam, se altercam, se substituem, mas no final sobra sempre você, professora como culpada pelos percentuais negativos que aparecem nas avaliações.

VEJAMOS O QUE DAÍ PODE SE DESDOBRAR

 

O que acontece com o tal método fônico, que é, por definição, restritivista quando diante desses impasses? Seus defensores vão insistir em atividades explicitas e homogeneizadas de associação entre fonemas e letras, fiéis ao princípio de que para aprender a ler são necessárias duas fases, uma de treino esvaziado de sentido, apenas focando a mecânica das correlações fonema-grafema; outra de aproximação do sentido (reconhecer palavras na leitura, ler frases simples, períodos e textos, que seria a fase de compreender – ou seja, a primeira fase seria o ensino da leitura propriamente dito, pois para os fonocentristas ler é diferente de compreender, ler é conseguir produzir os sons humanos (mesmo que não tenham sentido) a partir de uma pauta gráfica. Se o aluno leu “batata” só com os sons, sem saber o que leu, já está ótimo, cumpriu a primeira fase. Na segunda, ele vai ser instado a associar o ato de ler ao de compreender. Tudo isso, voltando a repetir, é planejado pra todo mundo, mesmo que o aluno já saiba ler – lembre-se de que a isso chamamos sujeito universal (neste caso, todo o material didático poderia ser importado dos EUA e adaptado, sem problemas).

Minha ideologia sustenta que o método fônico é uma espécie de revanchismo tardio dos embates metodológicos que ocorreram ao longo do século XX. Hoje, boa parte dos pesquisadores reconhece que lidar com os elementos menores da língua e da escrita é absolutamente necessário. O que deve ser condenado hoje são as metodologias restritivistas, aquelas que acreditam que só há uma maneira infalível de alfabetizar, aquelas que se recusam a fazer síntese e a estudar a complexidade da realidade social e os efeitos das intervenções educativas sobre as singularidades. Nesse sentido, método fônico e certo construtivismo radicalzinho são tal e qual! Quem pesquisa, quem faz questão de trabalhar com dados da realidade brasileira sabe que essas posturas só atrapalham – só pra se ter uma ideia, até recentemente (início desta década) algumas funcionárias da rede estadual paulista e paulistana chegavam a proibir silabários em sala de aula como se estes fossem responsáveis pelo fracasso do construtivismo radicalzinho que aplicavam na rede pública – ah, proibiam também livros didáticos que traziam atividades com fonemas e sílabas (denuncio isso em meu livro “Oralidade e Alfabetização: uma nova abordagem do letramento”, Editora Cortez, 2013), algumas escolas chegaram a queimar montanhas de livros didáticos durante o governo Serra, pois os materiais vinham do PNLD, governo do PT. A mesma minha ideologia, que criticou o construtivismo, prevê que deverá acontecer processos semelhantes nas redes que irão se sujeitar à Metodologia Fônica. Seus educadores sofrerão restrições, serão obrigados a homogeneizar a pedagogia, a aplicar atividades fônicas à exaustão, independentemente do que seus alunos já conhecem. Aquele professor criativo, meio alquimista em suas misturas de ideias e métodos, que era capaz de mobilizar seus alunos rumo a uma entrada tranquila e lúdica no universo da escrita, se não resistir, poderá estar com seus dias contados.

Nos financiamentos de pesquisa com certeza o fluxo irá para os que defendem o tal MF. Posso garantir que até então isso não acontecia nas agências de financiamente (CAPES, CNPQ, FAPESP). Eu mesmo, como professor universitário, elaborei vários pareceres favoráveis a pesquisadores que levavam em conta a ideologia fônica. Mas temo que a reciprocidade não acontecerá. A ideologia do MF é bastante restritivista e vem com furor, banindo o que se tinha antes (já dá pra ver isso nessas desastradas nomeações de Bolsonaro e de Velez e no tom irônico e desrespeitoso com que Nadalim tratou uma das grandes pesquisadoras da área de alfabetização, Magda Soares, em um de seus vídeos no Youtube).

Como sou ideológico, costumo tomar algumas precauções contra mim mesmo. Uma referência boa que peguei para considerar o poder heurístico desta ou daquela metodologia foi a conferência de consenso organizada na França pelo PIREF – Programme Iniciatif de Recherche en Education et Formation (2003)[3]. Diferentemente do que a Câmara dos Deputados do Brasil fez em 2003[4], quando convidou uma banca de fonocentristas para analisar a situação da alfabetização no Brasil, a conferência francesa buscou mais neutralidade, indicando inclusive pesquisadores de fora da área da alfabetização para atuar como pareceristas mais neutros. A missão seria recolher e analisar pesquisas, argumentos e dados para definir o que seria essencial para ensinar bem a leitura e a escrita.

A conclusão deve ter sido decepcionante para os fonocentristas. Os especialistas apenas condenaram práticas restritivistas, sugerindo práticas mais heterogêneas. Republico aqui um trecho de um artigo que publiquei em 2006[5], no qual resumo alguns trechos da conferência:

O resultado geral da conferência não foi a escolha de um método ou mesmo a eleição de atividades fônicas como centro do processo do ensino de leitura. Ao contrário, a recomendação dos especialistas é que se combine o trabalho sobre o código com atividades que resgatem o sentido e ainda sugerem muitas outras atividades sobre língua, compreensão e produção textual – deixam claro que o trabalho sobre o código é importante, mas não suficiente. O único método que é citado como não recomendável seria o “ideovisual, porque ele se recusa a trabalhar com a correspondência grafema-fonema” (PIREF, 2003. p. 3). Ainda assim, autores importantes nessa conferência, como Goigoux (2003), veem elementos positivos nessa concepção de Foucambert e comentam que, apesar de não ter sido utilizado na França de forma pura, exerceu influências positivas que estão presentes no próprio programa de 2002, que o rejeita (p.10-11).

 

Cansados de repetir, mas vamos lá novamente! Encaminhar uma política que vise de fato o enfrentamento da questão mais crucial da educação brasileira, as dificuldades de ensinar a leitura nas redes públicas, NÃO É MERA QUESTÃO DE ADOTAR ESTE OU AQUELE MÉTODO! Já caímos nessa esparrela com certo construtivismo enviesado em algumas redes públicas (a Paulista e a Paulistana são exemplos recentes). A ideia de uma metodologia única, com promessas mirabolantes, agrada sempre o político, o administrador, o dono da escola, pois se há um método milagreiro, a gestão não precisarão gastar verbas com reformulação das estruturas do ensino (cargos e salários, infraestrutura de sustentação de um programa verdadeiramente ousado etc.), basta apenas contratar uma formação continuada básica e deixar vigorando na caduquice a tradição de sempre (um professor isolado para cada turma de 25 a 35 alunos). O grande problema é que só se percebem os resultados negativos tardiamente, oito, nove, dez anos depois, pois, em geral, durante o processo as avaliações nacionais espremem os dados para tirar resultados positivos mesmo que estes sejam irrelevantes.

Conforme mostramos no início deste texto, os diferentes grupos que toda professora encontra ao fazer a avaliação inicial do primeiro ano, demandam uma reestruturação do modelo de trabalho. O atual modelo (uma professora, isolada para cada turma de 25 a 30 alunos) era adequado para a escola competitiva, que reprovava e encaminhava à evasão boa parte da turma. Com a entrada do regime de ciclo, conseguiu-se baixar os altos índices de reprovação, mas piorou muito a qualidade do fluxo. Como sabemos, por volta de 50% dos alunos não adquirem leitura suficiente para prosseguir seus estudos após terminar o Fundamental I, ou seja, o mesmo índice de reprovação + evasão que se tinha antes. Neste ponto discursivo reside outro truque dos defensores do Método Fônico, costumam dizer que os países adiantados que resolveram seus problemas adotaram o MF, quando, na verdade, o que fizeram foi uma reestruturação geral do sistema de ensino e, na alfabetização, incluíram o trabalho com fonemas, letras, sílabas etc. Muito diferente do que adotar exclusivamente um método.

 

Nossa pesquisa mostrou (Belintane, 2017) que, para de fato implementarmos um regime de ciclos que consiga evitar altos índices de reprovação e ao mesmo tempo cuidar da qualidade durante o fluxo, seria preciso mexer na estrutura de trabalho e na infraestrutura básica de atendimento. Seria necessário, por exemplo, mais profissionais (de preferência com boa especialização em alfabetização e leitura) para cuidar dos grupos que vão entrando em defasagem, ou dos que têm potencial, mas vão se estagnando na média baixa. Constituir equipes de trabalho a partir das demandas reais, valorizar a responsabilização coletiva – por exemplo, se o ciclo I vai até o terceiro ano, cada turma de alunos estaria integrada a um trabalho verdadeiramente coletivo, evitando que as professoras tenham que assumir responsabilidades isoladas com suas turmas. Um recorte assim permite reagrupamentos de turmas (RGTs), de acordo com objetivos atingidos e não atingidos nas avaliações feitas pela equipe. Nas Escolas de Aplicação da USP (São Paulo) e da UFPA (Belém), criamos RGTs temporários e específicos para objetivos bem focados, por exemplo, alunos que não dominavam sílabas complexas constituíam turmas provisórias (durante duas semanas), ao lado de outras turmas que, por exemplo, estavam acelerando a leitura. Em resumo, alunos do primeiro, do segundo e do terceiro ano, de várias turmas, assumiam coletivamente o desafio de resolver as dificuldades que lhes eram pertinentes naquele momento. Os reagrupamentos não se classificavam por ano ou turma, mas por objetivos avaliados, atingidos ou não. Em pouco tempo, grupos de alunos se livravam de incômodos insuportáveis, por exemplo, o de não compreender como se leem sílabas complexas (ch, lh, nh, cl, pr, bl etc.) e voltavam para a turma mais leves, mais engajados, mais dentro das possibilidades de serem escolarizados ou de se considerarem possíveis bons leitores. E nós, na retaguarda, criávamos materiais específicos para cada RGT, sem restritivismo, apropriados ao que se quer superar no momento.

Qual metodologia ou concepção? Método Fônico? Construtivismo? Nenhuma das duas, sobretudo quando estes se isolam em seus preceitos restritivistas! Aqui se deve levar em conta a língua e a cultura brasileiras, o universo de letramento, a função social da escrita, mas também toda a funcionalidade da articulação entre fonemas, letras, sílabas e palavras – só pra se ter ideia, tínhamos atividades fônicas bem dinâmicas para o aluno entender o modo como a sílaba simples se compõe. Tudo isso aliado a uma boa predisposição para avaliar, diagnosticar e escutar mais detalhadamente cada aluno. Ter a oralidade (que é o recurso mais acessível ao aluno) como ponto de partida (contação de histórias, jogos lúdicos com palavras e outros elementos menores da língua, adivinhas etc.), o trabalho coletivo e muitas outras descobertas que surgem quando se está ao vivo e aberto em salas de aulas reais. Costumo ensinar aos meus alunos da universidade que, para além de técnicas e métodos, está a boa relação, aquela capaz de engajar subjetividades – aquela postura a que chamo “ponto de giro” (Belintane, 2017).

Retomando as concepções existentes: poderia ser a sociointeracionista? Poderíamos retomar Paulo Freire, Montessori, Emília Ferreiro, Psicanálise e Educação, os conceitos de letramento etc.?  Sim!

Isso é ecletismo!? Se quiserem chamar assim, fiquem à vontade, mas o importante para todos é que as formações de cada um sejam muito bem-vindas e aprendam a conviver pra além de suas restrições. Uma das maiores virtudes em alfabetização é descobrir logo que a teoria que você aprendeu na academia faz água. Toda teoria é insuficiente diante da complexidade da realidade. Mesmo que elas tenham berço de ouro, se respaldem nas mais adiantadas descobertas científicas (talvez, essas sejam as piores!). As teorias restritivistas escondem seus problemas e acabam culpando o aluno e sua família por suas próprias falhas ou insuficiências. Então, o importante é o trabalho coletivo e a predisposição para admitir falhas em suas metodologias ou concepções e buscar soluções em quaisquer outras. Talvez um dia a gente chegue à conclusão de que educação é o que se faz dentro da escola, ao vivo, aprendendo com as demandas que surgem, o resto é filiação teórica, que é boa e absolutamente necessária, mas que, quando na labuta coletiva, tem que baixar a bola e dar espaço às soluções mais apropriadas ao momento e ao caso.

Claudemir Belintane, professor de Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa e de Alfabetização na Faculdade de Educação da USP. Autor de  “Oralidade e Alfabetização: uma nova abordagem do letramento” – Editora Cortez, 2013) e “Da corporalidade lúdica à leitura significativa: subsídios para a formação de professores”. Editora Scortecci, 2017.

 

[1] Em vez de subsumir o gênero feminino, aqui faço o contrário, pois nestes ciclos as mulheres constituem maioria.

[2] Conceito que cunhamos para designar metodologias e perspectivas educacionais que se afirmam a partir de uma oposição “isto pode”, “isto não pode”, independentemente do contexto e das avaliações já realizadas.

[3] http://www.cndp.fr/bienlire/01-actualite/c-en-parle06.asp

 

[4] https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/ce/documentos-1/relatorio-de-atividades/Relat_Final.pdf

 

[5] http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-97022006000200004&script=sci_abstract&tlng=pt

 

UMA FLOR ROMPE O ASFALTO

Breve reflexão sobre a atualidade da crítica de Antonio Candido.

Júlio Belintane

 

 

Talvez o primeiro clássico da literatura ocidental seja a Ilíada, de Homero, que conta a história da ira de Aquiles, em meio à Guerra de Tróia. Durante o conflito, o melhor amigo de Aquiles, Pátroclo, é morto por Heitor, grande herói de Tróia e filho do velho rei Príamo. Após o duelo entre o grego e o troiano, Aquiles vence, amarra o corpo de Heitor à sua carruagem e arrasta-o até seu acampamento. Lá, quando lhe arrebatam a ira e a tristeza pela morte de Pátroclo, ultraja novamente o cadáver de Heitor.

 

No último canto, Príamo, rei dos troianos, vai escondido à tenda de Aquiles pedir que este lhe restitua o corpo de Heitor. Conta sobre o sofrimento de um pai ao não poder velar o corpo de seu filho com tal dramaticidade que Aquiles pensa em seu próprio pai. O herói grego sabia que não voltaria vivo da guerra de Tróia, sua mãe premonizara sua morte em batalha. Assim, reconhece no drama de Príamo a figura de seu próprio pai ao não poder velar-lhe. Os dois choram juntos na tenda de Aquiles, que restitui o corpo de Heitor a Príamo e lhe concede dez dias de trégua para que os ritos fúnebres fossem realizados.

Como vemos, a nobreza de Aquiles se revela por meio do reconhecimento do outro, mesmo que esse seja seu inimigo jurado, e na internalização das dores do outro por reconhecê-las como também suas.

 

Mas esse texto que hoje escrevo não é sobre a Ilíada. É sobre a morte de Antonio Candido, um dos maiores críticos literários e intelectuais que o Brasil já teve. Remoí por alguns dias essa morte, e precisava expressá-la de alguma forma. Espero que meu rude verbo possa prestar-lhe alguma homenagem póstuma, ou no mínimo contribuir para espalhar a mensagem do mestre.

 

“Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir.” Essa curta passagem é do Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. A literatura (e a arte de uma maneira geral, mas mais especificamente a literatura por sua forma de expressão, a palavra) é essencialmente verdadeira, ainda que seja inventada. As histórias que são contadas, os poemas, romances, crônicas, podem não conter verdade alguma, serem frutos de uma mente criativa completamente despreocupada com o reflexo da realidade. Porém, se sua linguagem toca o leitor, a emoção gerada nesse encontro entre leitor e escritor é real.

 

Os gregos chamavam esse sentimento TERPSIS: o completo encantamento pelas palavras de um poeta. A Terpsis não é vazia: por meio da linguagem ocorre o encontro e o reconhecimento de dois universos separados, o do leitor e o do escritor. O fascínio não está necessariamente no conteúdo, mas na conjunção entre o conteúdo e a forma, e principalmente, nesse trabalho de projeção e introjeção das personalidades. Após a Terpsis, o leitor não é mais o leitor, ele é uma parte de um outro – o escritor.

 

Esse processo não é necessariamente prazeroso: pode-se ter raiva de personagens e autores, receio de que algum venha a morrer, se sentir inspirado ou completamente abatido pelo o que ocorre dentro desse pequeno objeto retangular a que chamamos livro. Após a publicação de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, houve uma série de suicídios de jovens que se reconheciam no romântico apaixonado, e buscavam o mesmo fim.

 

A literatura tem poder. E seu principal poder é de gerar esse processo de reconhecimento por meio da linguagem: por meio da Terpsis um homem reconhece o outro, seu diferente, e se engrandece, pois entra em contato com valores, altos e baixos, que não são seus, e deles se apropria. A literatura, por meio da linguagem, é o principal instrumento de geração da alteridade: o reconhecimento de si no outro.

 

Candido sabia disso. Defendia o mestre: a literatura humaniza. Aquiles, colérico, o maior dentre os aqueus, abranda sua ira e chora junto do inimigo por meio do reconhecimento. Essa atitude é a nobreza, é a flor da humanidade que brota, conquanto a guerra deva ser feita. Esse é o desfecho do primeiro dos clássicos da humanidade e tema perene ao longo da literatura.

 

E como falar de literatura em tempos de Twitter, Facebook, mídias massivas, se esses meios de comunicação são sua perversão: são a reiteração dos gostos pessoais, dos gozos, do reflexo do eu. A beleza da linguagem jaz perdida: textos curtíssimos cheios de abreviações, número máximo de caracteres etc. Um texto mais longo é rapidamente rolado para baixo, e mesmo os raros bons textos concisos são rapidamente esquecidos no próximo vídeo de cachorrinho da Timeline. Reafirmações de eventos, festas, vestidos, músculos: uma farsa do eu altamente repressiva, pois rasa e autoelegíaca. A literatura forma indivíduos reflexivos, esses meios formam massas reprodutivas.

 

Quem já leu um Dostoiévski, ou um Machado de Assis, ou um Graciliano Ramos sabe: os personagens desses grandes autores são criaturas torturadas, cheias de idiossincrasias, muitas vezes marginais. Ao ler Crime e Castigo, o  leitor se assusta ao olhar fundo na alma do assassino Raskolníkov, se reconhecer e pegar a si mesmo torcendo para que ele não se entregue. Ao se deparar com tais questionamentos, o leitor olha para dentro de si, questiona a si, transforma a si. E principalmente, faz o esforço para compreender o outro.

 

Cabe ressaltar, relembrando Candido, que há também a literatura popular: folclore, repente, contação de histórias, dentre outras modalidades, que, atualmente, só nos remete àquele tio ou avô do interior, que ainda é capaz, em certa medida, de transmitir esse conhecimento. Essa é tão importante quanto a dos clássicos, pois também gera esse processo de reconhecimento e reflexão quando levadas a sério. A própria Ilíada ganhou corpo a partir de poemas cantados, que só se converteram em livro após mais de 300 anos de tradição oral.

 

Quanto às redes sociais e mídias de massa, elas não são provocativas, não propõem problema algum, e quando propõem é em textos tortos e pouco convidativos, como esse. Pior: após a leitura basta uma leve rolada de página e pronto, sumiu-se na série de eventualidades. Não há angústia, reflexão, interiorização. A foto de Aylan Kurdi é passado, teve seu papel para a sensibilização instantânea e logo foi esquecida.

 

O atual fenômeno do Netflix, Black Mirror, seriado a que assisti e  do qual gostei, não foge à crítica, se não quanto ao conteúdo, quanto ao meio. Assiste-se um episódio, fica-se chocado por aproximadamente três minutos, até se decidir qual será a próxima série a ser vista. E a reflexão e a interiorização, ficam perdidas.

 

O que eu quero dizer, meus caros, é: a literatura, como fonte de alteridade, como comunicação profunda entre dois universos, é essencialmente democrática e propositora de valores humanistas, pela sua própria forma de expressão. Mas, sinto, ela vem sendo substituída pela facilidade gozosa de tantos outros meios. Paralelamente, esses meios de expressão são autocentrados, autocráticos e repressores. Não promovem qualquer forma de reconhecimento e alteridade: não é à toa a agressividade frequente nas redes sociais.

 

E, se tenho ainda a sua atenção, caro leitor, talvez já tenha reparado no embuste que lhe preparei: esse é um texto também político, assim como políticos eram os textos de Antonio Candido. Seja da parte da esquerda, seja da parte da direita, o que observamos nas redes sociais é a mais clara falta de alteridade e compreensão. Pouco importa a verdade (se ela existir em algum lugar), pouco importam os argumentos, a validade teórica ou qualquer outro parâmetro: o que vale é a reiteração do eu, a punheta constante da verdade própria. A sensibilidade, a sensatez, a compreensão, tudo isso tão caro à literatura e à civilização, são completamente esquecidos.

 

No ambiente das redes sociais e nas atuais mídias, se fosse dado o voto, Aquiles mataria Príamo e ultrajaria seu corpo junto ao de Heitor. Louvores, likes, coraçõezinhos e mesmo “gratidões” voam: Aquiles é amado pelo Facebook! Passa-se a Guerra de Tróia, Aquiles morto, #somostodosaquiles. Alguns meses depois, Aquiles é esquecido nas Timelines de seus mais fervorosos fãs de outrora.

 

Creio que a ignorância e o analfabetismo literário foram fatores essenciais para gerar essa conjuntura atual. Não que seja um fenômeno objetivo e direto – estamos falando de literatura, afinal – mas penso que apenas indivíduos pequenos, egoístas e que não exercitam sua alteridade por meio da leitura seriam capazes de apoiar o discurso de um Bolsonaro ou de um Trump, ou justificar tão friamente a “inevitável necessidade de fazer cortes e ajustes na economia, cortar na própria carne” com cinismo pretensamente aristocrático. Uma sociedade como essa, mesquinha, que perverte a alteridade, sem respeito pelo ser humano, é uma sociedade de analfabetos da alma!

 

Noventa e oito anos, sei que está mais que merecido o descanso do mestre Antonio Candido, mas é de um pesar inigualável que sua ternura tenha nos deixado justamente nesses tempos sombrios, de Facebooks e Twitters, Temers e Trumps.

 

Penso que era disso que o velhinho falava. Ele e a literatura vão fazer muita falta.

 

ENEM: de quem são as competências e habilidades para encará-lo?

Márcia Celestini Vaz

O ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) é uma das avaliações implementadas pelo Governo Federal com o objetivo de aferir o desempenho do aluno em parte de seu processo de aprendizagem. Juntam-se a ele o SAEB (Prova Brasil), o ENCCEJA, a Provinha Brasil e a ANA (Avaliação Nacional de Alfabetização), entre outras, todas com essa mesma meta: avaliar a qualidade da Educação Brasileira, seja para a educação básica toda, seja para parte dela, seja para jovens e adultos. No caso do ENEM, a fatia é o final do processo da educação básica, o Ensino Médio.

Como em outras avaliações (o ENCCEJA, por exemplo), a palavra da vez ao nos referirmos ao ENEM deve ser “competência” (e sua companheira inseparável, a “habilidade”).

Mas antes de entrarmos nessa seara, vale considerar como boa parte das escolas, de famílias, da mídia, do mercado editorial tem tratado esse filé (do marketing escolar?) que apareceu há quase duas décadas. Para além de “competências e habilidades”, a bola da vez é o ranqueamento.

Assim que os resultados do ENEM são divulgados, muitas pessoas (de todas essas instituições citadas – que têm como discurso-mestre a preocupação com a formação do cidadão (o eco é inevitável) – correm para ver em que posição sua escola ficou, a escola de seu filho, a escola do amigo do filho, a escola rival...

Em pouquíssimas situações, aparece a pergunta ao longe “Quais são os critérios para essa classificação? ”. O porte da escola conta? O número de alunos que se mantém no Ensino Médio em todo o percurso do aluno conta? O fato de uma escola aparecer com dois CNPJs conta? O fato de alunos com desempenho abaixo da média serem desestimulados a prestar o ENEM conta?

O ranking das escolas “colou” na mente das pessoas a tal ponto de termos de responder a pais que estão visitando a escola para matricularem seus filhos no 1º. ano do Ensino Fundamental I sobre o porquê de não estarmos em 1º. lugar dos “TOP 10”.

Interessante a pergunta não ser: qual é o projeto pedagógico da escola? Qual é o projeto de leitura e escrita desenvolvido? Como os alunos, em suas potencialidades e dificuldades, são tratados?

E aí, voltamos a nosso tema. ENEM e as competências e habilidades. E ao título. O ENEM escolarizado.

Paralelamente ao ensino de acentuação gráfica, fotossíntese, relevo, há de se ensinarem competências e habilidades. Há materiais didáticos e aulas especiais destinados a esses novos conteúdos.

Não se faz aqui uma crítica ao ensino-aprendizagem de competências e habilidades como conteúdos conceituais que são. A crítica direciona-se aos modos de ler, que, muitas vezes, se restringiram (ou retornaram) a técnicas, procedimentos, dicas, livros de apoio, aulas especiais.

Ensina-se a ler uma questão “tipo ENEM” como se brincava com o livro “Onde está Wally?”. Encontre ali a habilidade e a competência e você eliminará alguns concorrentes!

Em Redação, a formatação do olho e da mão fica ainda pior. Os critérios para a correção do texto (que será aferido de 0 a 1000 – em cinco competências que vão de 0 a 200 cada) são:

C1: domínio da norma padrão da língua portuguesa

C2: compreensão da proposta de redação

C3: seleção e organização das informações

C4: demonstração de conhecimento da língua necessária para a argumentação do texto

C5: elaboração de uma proposta de solução para os problemas abordados, respeitando os valores e considerando as diversidades socioculturais

O texto deve ser dissertativo-argumentativo.

Mais uma vez, “os segredos para uma redação nota 1000” aparecem, por exemplo em:

C3: coloque várias referências das aulas de Literatura, História, Geografia, Filosofia e Sociologia (as demais disciplinas também podem aparecer) – o que vemos é uma enxurrada de citações sobre Fabiano (se, no momento, os alunos estão lendo Vidas Secas, de Graciliano Ramos), Ana (se o conto é Amor, de Clarice Lispector), sobre as recentes manifestações sociais, sobre a crise ambiental...sem contextualização alguma;

C4: no terceiro parágrafo, coloque “Por outro lado...” e, no último, não se esqueça de “Enfim” ou “Portanto”;

C5: no último parágrafo, não se esqueça de colocar pelo menos dois agentes. “Quais, professor?!?!?!” “Ah, põe lá a família e o Estado; a mídia e a Escola; a Escola e a família”...

As competências e habilidades, do modo como estão sendo lidas e ensinadas, estão reforçando um modo de ler fragmentário, desconexo, ausente de sentido e, consequentemente, de desejo...de ler, de escrever, de pensar, de autorar...

Se formos aos Eixos Cognitivos que embasam as famigeradas Competências, encontraremos, na Área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias (os grifos são meus):

II - Construir e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas.

III - Selecionar, organizar, relacionar, interpretar dados e informações representados de diferentes formas, para tomar decisões e enfrentar situações-problema.

IV - Relacionar informações, representadas em diferentes formas, e conhecimentos disponíveis em situações concretas, para construir argumentação consistente.

V - Recorrer aos conhecimentos desenvolvidos para elaboração de propostas de intervenção solidária na realidade, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.

Será que não seria hora de o professor se perguntar: como fazer meu aluno compreender? Como desenvolver atividades em que a seleção, a organização, a relação e a interpretação de fenômenos apareçam? O que implica “relacionar”?

A “competência” maior a ser construída – se assim se quiser – não está no procedimento de saber enquadrar, colocar em um formato, um objeto (seja ele um livro para o ENEM, uma dica, uma aula especial). A “competência” maior está no posicionamento subjetivo do indivíduo frente às leituras (de qualquer natureza, âmbito, valor). Mas há um adulto lá na frente da sala, que subjetivamente (não ler aqui o subjetivo como pessoal, emocional e impressionista) pode – ou não – manejar a língua em seu funcionamento ou em sua função.

Ao contrário, e mais uma vez, a função utilitária do ler e do escrever está prevalecendo, em um momento em que os alunos estão saindo da escolarização básica e tentando entrar no mundo dos milhões de bichos-papões. Sim, o ENEM abre portas (ProUNI, FIES...), mas, do modo como o estão tratando, estão tirando do adolescente sua capacidade de olhar para o mundo para além de esquemas, de scripts.

Por que “dicas”, se posso debater?

Por que “coloque o conectivo correto”, se posso descobrir a contradição no uso dele e brigar com a língua e com minha ideia até que se encontrem em uma trilha interessante...significante?

Por que apresentar enredos infinitamente, se posso confrontar contextos, personagens, estilos?

Por que não?

Em nome do que temos em mãos e a nossa frente, o ENEM pode até ser um dos instrumentos, nunca um fim.

Ah...e não há mal nenhum em escolarizar...façamo-lo com seriedade, e para além dos exames nacionais.

 

Quantos com cabem em um sem - Escola sem Partido: por uma Escola do impossível

Márcia Celestini Vaz

 

Às calorosas questões políticas desdobradas recentemente pelo processo de impeachment da presidenta afastada Dilma Roussef soma-se a prentensiosa polêmica da vez, na contramão e sem a graça que um bom nonsense carrega consigo: a despolitização, para cuja discussão não caberia palco mais interessante do que a Escola, para onde converge tudo que precisa ser higienizado, padronizado, transformado.

O Projeto de Lei, de Izalci Ferreira (PSDB- DF), alcunhado de “Escola sem partido”, chegou ao Congresso em plenas férias escolares. Enquanto pais, professores e alunos estavam no gozo de seus direitos, outros atores preparavam alguns deveres que aqueles seriam obrigados a cumprir assim que voltassem seus olhos para a Escola.

Destaco aqui os olhos do professor, assim como são vistos e postos no Documento: os olhos do não. “Não favorecerá”, “Não fará”, “Não prejudicará”, “Não permitirá”. E fiquemos, por enquanto, com esses quatro mandamentos...ou serão orientações?...ou serão conselhos?... que trilha

semântica pegar para não surpreender ou ser surpreendido?

A ordem veemente do Documento seria: deixem seus olhos de mundo no mundo e recoloquem seus olhos de Escola.

Junto aos “nãos” vêm as fronteiras (Art. 6º.), os limites da atividade docente.

A justificativa para a implantação da lei seria a preocupação com o “grau de contaminação político-ideológica” das escolas brasileiras.

Olhos rasos, bocas repletas de negativas, corredores com um único sentido.

Com tantas negativas em mãos, gostaria de voltar ao título desse texto e transformar a afirmativa lá exposta em questionamento: quantos com cabem em um sem?

Primeiramente, caberia a representação da figura do professor que no texto se faz. Michel Pêcheux, em Semântica e Discurso – uma crítica à afirmação do óbvio, apresenta o conceito de forma-sujeito, expressão tomada de empréstimo de Louis Althusser ao se referir à existência histórica de todo indivíduo. Considerando-se que os sentidos não existem por si, mas, entre

outros determinantes, pelas posições ideológicas colocadas em jogo, em embate, a cada contexto de comunicação humana, o professor resultaria nesse ser sem posição, sem função, sem contexto e, portanto, sem embates.

Impossível.

Além de um indivíduo assim concebido, sem engates, caberia a ausência, consequentemente, da leitura, como processo de atribuição de sentido às representações. O Projeto de Lei seria, então, sobre “contaminação político-ideológica” ou sobre a “importância do ato de não ler”? Como implicar outros sujeitos em uma leitura a contrapelo se é negado ao mediador desse processo um dos princípios que embasam sua função? E leitura implica embate. E escrita implica desejo. E os dois principais processos “ensinados” na Escola pressupõem a memória.

Em seu processo constante de leitura/escrita, o sujeito se reconhece e se reconforma (e ao outro) em seu ler/dizer. Para esse processo de construção do sujeito, de seus modos de ler e dizer o mundo, convergem suas produções culturais, suas relações sociais, sua percepção/elaboração de acontecimentos históricos, em um movimento construído por/na contradição, por esse movimento de oscilação contínua entre o já-posto pela cultura e o instalado/instaurado pelo sentido. Nesse jogo, uma memória vai se constituindo, construindo heranças e as fazendo re-produzir, re-operar.

Ler e dizer sem memória. Impossível.

Ler e dizer em uma ambiência escolar, especificamente em uma aula. Como podemos visualizar esse sistema de relações em atuação? A Escola, em sua organização, e a sala de aula, como sua representação maior, são o espaço da fragmentação, da dissociação: de conteúdos, de disciplinas/áreas de conhecimento, de textos (apostilas, livros didáticos que trazem sempre “trechos de”, “pedaços de”), que acabam se refletindo em modos específicos de leitura e produção de textos.

Aos professores, se em sua função-sujeito, caberia a abertura de uma trilha significante a tantas “cápsulas de conhecimento”. Mas não, o que se espera é que a leitura não aconteça, que, no máximo, alunos e professores conformem-se com a codificação e a decodificação, com a leitura fragmentária de palavras-chave ou, no máximo, que consigam parafrasear, sem muito esforço, o aceitável, o único, seja ele um partido, uma orientação sexual, uma cultura, uma variante, uma etnia.

Se considerarmos a função-sujeito em ação, impossível.

Por enquanto, no “sem”, cabe uma determinada representação da figura do professor, cabem a leitura e a escrita destituídas de engates, cabe um objeto (seja ele qual for – aula, texto, livro...) fragmentado.

Cabe, ainda, um outro sujeito, principal ator desse teatro? E nessa briga do UM, como fica o par? E o aluno? A cada movimento de leitura e escrita dele, em cada aula, por exemplo, ao se levantar a película da “lousa mágica” de sua mente, não se veria nada ali registrado? Ele entra e sai da Escola, da sala de aula, de suas infinitas interações sociais, sem desejar e sem implicar desejos no outro?

É em prol dele essa Lei, considerando que, em suas entrelinhas, ele não é considerado um sujeito?

É para quem? Para quê? Por quê? No aqui-e- agora de nosso momento histórico tão movediço, impossível querer saber com um desejo criador.

Nesse momento, talvez só nos reste convocar Ethan Hunt e torcer para que responda afirmativamente a nossa mensagem.

 
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