A TRÍPLICE ALIANÇA

Linguagem, contexto e posição subjetiva: como operam em uma produção de texto?

 Márcia Celestini Vaz

 

As aulas de produção textual podem ser lidas a partir de três elementos: o funcionamento da linguagem, o contexto de produção dos textos e as posições subjetivas dos implicados nessa específica situação de interação social que se faz em uma sala de aula. Todos esses elementos conformam o sujeito em suas escritas mas nem sempre conformam a leitura que dele se faz. Dificilmente se pensa, em aulas específicas de LP e mais específica aqui a de produção textual, na língua em seu funcionamento. Geralmente se destaca a língua em sua função: a de comunicar. E aí entram os ingredientes do “bem comunicar”: por escrito, na variante padrão e, de preferência, atendendo às expectativas do leitor (escrever sobre e como sei

que ele gostaria de ler). De imediato, podemos pensar naqueles quadros-síntese que opõem “oral” e escrita ou que apresentam os elementos do processo de comunicação em associação com as funções da linguagem ou, ainda, aqueles que indicam como se iniciar, desenvolver e concluir um texto (com quais expressões ou conjunções-chave).

Essa representação legitimada por materiais didáticos e materializada em currículos e conteúdos programáticos a serem solicitados nas mais diversas avaliações externas pós-ensino básico (as que possibilitam o ingresso dos estudantes em universidades) indica, portanto, que a língua oficialmente possui unidade, completude, coerência, clareza, distinção, formato

específico. E, portanto, não admite a contradição.

É assim a língua vista em sua função, que não admite brechas, vazios, incertezas, ruídos, jogos (a não ser na poesia e na piada).

Vamos pensar: se é função do autor, e do modo como organizou suas ideias no texto (destaco o como e não o quê), a produção do efeito de continuidade do sujeito, como esse processo de atribuição de sentidos se daria frente a produções sem “vazios”, por outro lado, frente a produções tão claras, coerentes, completas? Não é à toa que a Escola é o espaço de disseminação de tantos plágios. Muitas vezes, a transcrição fiel de um texto pelo aluno (o famoso “recorta-e- cola”) não é vista por ele como algo inadequado ou errado. Por diversas vezes, vemos alunos surpresos ao receberem uma observação em seus textos de que os mesmos foram desconsiderados. Será que não passa por essa surpresa um “Ué? Não era assim que era para fazer? Dizer o mesmo e do mesmo jeito?”, assim como algumas aulas se processam?

Em uma ocasião, cheguei a rir com uma aluna que veio me procurar dizendo não compreender o conteúdo de Física. Perguntei se já tinha procurado o professor e exposto a questão a ele. Ela respondeu: - Sim! Mas o que ele fez foi explicar tudo igualzinho, de novo, só falando mais alto. Quando respondi que não tinha entendido o conteúdo apenas e que não era surda, ele ficou bravo.

O plágio ou a repetição estéril é o efeito radical de um processo em que um sujeito diz ao outro: a relação entre sujeitos (via funcionamento da língua, em seus vácuos, suas imprecisões e deslizes) foi anulada. E aqui o movimento é de mão dupla: e vem o aluno plagiador, e vai o professor “processador” de textos/informações.

Nesse contexto, o texto-produto, objeto empírico, assume a constituição de uma unidade, com começo, meio e fim, com a apresentação de uma informação partilhada (estamos aqui na ilusão de uma linearidade informativa: aquilo que apresentei foi entendido pelo leitor do modo exato como apresentei...não fica a dúvida: existiria um processo de entendimento mútuo sobre uma mesma ideia?), acrescida de uma nova, que progredirão argumentativamente e, segundo procedimentos coesivos (escolhidos a dedo...geralmente alheio), resultarão coerentes. Tal concepção de texto, portanto, traz consigo uma de língua: fator de unidade e de comunicação.

Vamos pela contramão?

Não é difícil identificar em um texto, frente a sujeitos em enunciação (e não frente a indivíduos reproduzindo enunciados), e definir o que é partilhado, o que é informação nova, o que foi retomado sintática, semântica e ideologicamente, já que todas esses “ingredientes” estão determinados pela situação de produção discursiva, pelo contexto de produção?

Se o leitor responder sim!, estamos em uma bela trilha, como a de Ulisses. Se responder não!, mal não faz. A trilha continua ali à espera de ser aberta.

Vamos, os três, continuar!

A intenção posta aqui como desejo é: vamos abandonar (nem que apenas nesse momento de leitura) a diacronia como princípio de reflexão e adotar a sincronia. Em outros termos, vamos colocar os elementos aqui expostos juntos e em conjunção: sujeito, linguagem e contexto...em sincronia.

Contexto aqui seria sinônimo de cotidiano, de conhecimento de mundo, de conhecimento prévio? Não necessariamente.

Se contexto como assim qualificado só trouxer, para a situação de produção de texto, frames (estruturas formadas por concepções de senso comum sobre determinados conceitos), esquemas (que levam em consideração a temporalidade e a causalidade, de modo previsível e ordenado), os planos (estruturas que conduzem a uma meta pretendida) e scripts (modelos

estereotipados de conduta e de linguagem), então seria melhor questioná-lo mais.

Como?

Uma possibilidade seria lançar mão da inferência como recurso de leitura e produção de texto. Mas não a inferência que forçosamente quer preencher espaços atingindo o que o autor supostamente quis dizer (ação da instância do impossível), mas aquela que faz espaços e sentidos inalcançáveis continuarem a se movimentar e, dessa forma, redireciona posições

subjetivas, refilia posições ideológicas, constrói espaços outros de significação.

Em parceria com a inferência, temos a intertextualidade. Não apenas aquela que conecta textos por conteúdos, temas ou assuntos comuns, mas aquela mais desafiadora, a que possui um caráter estrutural, como a paródia, por exemplo, que evidencia rupturas com elementos temáticos dos textos colocados em diálogo provocando um deslocamento...de sentido, do

contexto, da linguagem.

“Ah...mas paródia não cai em vestibular”. Não mesmo...mas faz pensar, faz o leitor levantar o olho do texto e enveredar-se por outras trilhas, referências, contextos.

E isso o faz cair na vida, da melhor maneira que nós, professores, poderíamos oferecer a ele. Essa é uma das leituras que poderíamos fazer desse e para esse sujeito tão especial.

 

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